Conto de Natal: O Evangelho segundo Filonéscio

Finalmente chegamos a Belém. A viagem foi mais longa do que deveria e muito mais penosa do que eu poderia imaginar lá atrás quando vieram me buscar no curral falando que levaria Maria, esposa do meu patrão José, até Belém para que Ela acompanhasse o marido que deveria se apresentar na cidade para o Censo 0000 do IBGErodes.

Cruzamos de Nazaré a Belém em uma jornada insana para um simples recenseamento. No caminho apareceu uma estrela que, segundo Gabriel – Anjo da Guarda de José – é um sinal dos Céus para anunciar o nascimento de Seu filho,  Jesus. Ora, vou confessar que apenas como animal de tração dessa viagem, meu entendimento é limitado com relação a essas coisas. Nunca procurei me intrometer nem entender dos assuntos dos homens. Faço meu trabalho em troca de alimento, água e descanso em pouca sombra que é mais do que o necessário pra comportar o meu pequeno físico. Nunca fui de exigir compreensão nem piedade mesmo de meus donos. Nunca fui de buscar entendimentos ou lógica nas coisas feitas pelos homens, mesmo porque, afinal, eu sou um burro.

Mas tenho de confessar que desde o primeiro instante em que a jovem senhora subiu em meu dorso, um ânimo especial tomou conta de meu espírito como se aquela doce moça na flor de sua formosa juventude carregasse consigo algo de muito especial, de muito valioso. Não senti seu peso em nenhum momento da viagem. Não A ouvi reclamar em nenhum momento – nem mesmo sob o sol forte,  ou sob o frio das noites no deserto, ou de um balanço mais desastrado de minha parte ao subir e descer tantos morros.

Fiz um diário desses dias de viagem no #indoprabelem  que alguns puderam acompanhar pelo Twitter. Registrei desde nossa saída de Nazaré, passando pela casa de Isabel, seguindo pelo caminho em marcha bem lenta por conta do valor da carga. Falei das aparições pirotécnicas do Gal (Gabriel) que sempre me assustavam, mas serviam de diretriz para o José. Comentei da teimosia de José em tentar atalhos e se distanciar da Estrela ou mudar de rumo para fazer compras de Natal para os parentes em Belém. Apresentei alguns outros animais que nos fizeram companhia em alguns momentos da viagem como um coiote, uma gralha, um lobo e um cervo.

Mas agora chegamos a Belém só nós três. Exatamente como saímos de Nazaré. José já não tem mais sandálias. Eu já não tenho mais ferraduras. Mas ambos temos Maria e em seu ventre Aquele que trará caminhos novos para todas as sandálias e ferraduras desse mundo.

E então chegamos a Belém, finalmente. Mas a cidade está cheia por conta do Censo do Besteirodes e por uma apresentação da Banda Calypso de Judá. Pensei que ficaríamos em algum hotel ou no Resort Vale de Jezreel onde eu poderia tomar um bom banho e esticar as minhas canelas magras e ressecadas pelo sol e pela poeira das estradas. Mas qual não foi minha surpresa, ainda durante a viagem, ao saber que não tínhamos reservas para lugar algum. José estava contando em se hospedar na casa de alguns parentes – primos pra lá de distantes que nunca conheceu – mas todos em Belém aproveitaram o Censo e o show para levantar um “faz-me rir” com locação por temporada. Resultado: Não há vagas! Em nenhuma pousada ou casa de parentes.

O que fazer agora? Maria já começava a apresentar sinais de que o menino Jesus não estava disposto a esperar mais tempo pra nascer. José entrou em desespero pelo estado de Maria – mesmo sendo um homem de Fé sem igual – e começou a bater de porta em porta suplicando para darem guarida a sua mulher que estava em vistas de dar a luz. Mas a única coisa que ouvia é que a casa já estava cheia, que não havia lugar pra mais ninguém. O que fazer agora? Eu mesmo sentia a doce senhora se contorcendo sobre meu dorso, enquanto observava a agonia de José correndo por todas as ruas da cidade. Foi então que decidi – e isso Lucas esqueceu de comentar em seu Evangelho– ir até um estábulo que se via a partir do ponto em que eu estava parado com Maria. Chegando lá verifiquei que o local estava praticamente vazio. Os animais ainda estavam sendo recolhidos, os pastores ainda estavam no campo. Só encontrei um boi nas proximidades da entrada do estábulo.

- Ei, ei, ô burro, onde pensa que vai? -  disse ele com grama entre os dentes.

- Viemos de Nazaré e essa Senhora está prestes a dar a luz. Meu patrão procura uma vaga em alguma casa ou pousada, mas ninguém quer ou pode recebê-los. Vendo seu desespero, resolvi vir para o estábulo para que, pelo menos, a Senhora possa se acomodar com mais conforto do que teve durante esse tempo todo no dorso de um burro magro.

- Nazaré? Tenho uns primos por lá. Talvez você os conheça: Jamal, Benjamin, Hod, Halmak, Kauffman…. (e continuaria a ladainha se eu não sentisse um forte chute da barriga de Maria na minha nuca)

- Perdão, Sr….

- Simão, disse ele.

- Perdão Sr. Simão, mas a jovem senhora está muito cansada da viagem e, como o meu patrão ainda não retornou, será que poderíamos entrar para que ela descansasse um pouco até que encontremos uma casa para abrigá-la?

- Claro burrico! E deixa essa coisa de “senhor” para os cavalos dos romanos. Com eles é necessário esse tipo de formalidade. Além disso, sendo você de Nazaré, também deve conhecer minha primas Sarah, Raquel, Judith … (e continuou a falar mais uma dezena de nomes enquanto eu me deitava para que Maria pudesse tomar lugar de forma mais confortável no meio da palha).

Nisso chegou José, ofegante e com os olhos cheios d’água, exclamando que não conseguira encontrar nenhuma casa para acomodar Maria. A Senhora o tranqüiliza e diz:

- Nosso burrinho me trouxe até aqui e, com as dores que sinto, acho que não teríamos mais tempo para nos acomodarmos na casa de desconhecidos ou em pousadas,  mesmo que existissem vagas. Que seja conforme a vontade de Deus.

José acomodou Maria da melhor forma possível, arrumou o estábulo que já estava limpo e, como o Simão -  o boi entrão – não parava de falar de seus primos e primas (contei 40 durante esse tempo) num mugido misturado com irritantes sons de capim sendo ruminado, colocou-nos pra fora do estábulo.

- Mas Zé, meu velho, eu também? Eu tô quietinho aqui. É esse boi que está fazendo barulho. (reclamei com um zurro longo de indignação enquanto era puxado pelo cabresto)

E ficamos os dois lá fora. Eu, apreensivo com a minha Senhora. E o Simão pedindo que eu levasse umas encomendas para os seus primos quando voltasse pra Nazaré.

Pelas frestas da porteira, eu vi José separar um balde com água e arrumar uma manjedoura com um pouco da palha guardada no estábulo. Meu coração palpitava e praticamente não conseguia mais ouvir as baboseiras que o Simão falava. Só pensava na minha Senhora e no Seu menino. Só lembrava dos momentos da viagem. Só sentia no fundo de minha humilde alma que algo de extraordinário enchia de graça aquela moça tão delicada e simples. Mas…. eu sou um  burro, e, como tal, não entendo dos misteriosos caminhos que Deus escolhe para os seres humanos.

E no meio desses pensamentos, recordações de viagem e novas esperanças, olhando para a cara do Simão que não parava de falar e ruminar, eu ouvi um choro de bebê. Corri novamente para a porteira do estábulo e vi José erguer um menino pequeno e aparentemente frágil que chorava com a força de uma tempestade.

Passados mais alguns minutos, José veio até a porteira do estábulo e, abrindo-a, disse olhando pra mim e para o Simão:

- Nasceu, burrinho. O menino nasceu. Venham vê-lo.

Nem preciso dizer que dei um passo a frente do Simão e fui me colocar junto a manjedoura pra conhecer a criança. O Simão veio atrás falando alguma coisa sobre um vizinho de uma prima que era garçom fenício em uma lanchonete de comida árabe em Nazaré. Mas eu já não conseguia ouvir mais nada. Junto à manjedoura, voltei-me para ver Maria que parecia dormir um sono merecido. José, ao lado Dela, tinha um sorriso mais iluminado que a própria Estrela Guia.

- Schiiiiiiii!!!!! Vai assustar o menino.  -  disse eu em voz baixa, mas de forma firme para o Simão.

Foi só então nesse momento que ele se calou e veio olhar o menino. E ficamos nós dois ali, olhando a criança. Cada um querendo ficar mais perto da manjedoura. Eu sempre dando uma bronca ou outra nos barulhos que o Simão fazia. Ele, querendo retomar a conversa da garçonete casada com o vizinho árabe que tinha um restaurante de comida fenícia  … ou qualquer coisa parecida com isso. Ele mugindo… eu zurrando… José nos mandando ficar quietos, Maria rindo de forma discreta daqueles dois patetas rodando em volta da manjedoura de seu Adorado Filho.

Mas e o menino? Sim, senhores e senhoras. Tenho de confessar para o desapontamento de muitos de vocês que o menino Jesus era como um menino qualquer que nasce todos os dias em qualquer lugar do mundo. Não vi Legiões de Anjos. Não vi o estábulo ser inundado por canções celestiais. Não percebi nenhuma Luz Divina pairando sobre nós. A pouca luz que havia era de um lampião pendurado numa coluna de madeira do estábulo. Era tão pequena e fraca aquela chama, mas iluminava o suficiente para se ver tudo dentro daquele pequeno espaço. Formava-se, com isso, um jogo de luz e sombras que chamava a atenção do menino na manjedoura. Sombras de um burro e de um boi que rodavam a sua volta. E foi então que, brincando com essas sombras, o menino sorriu pela primeira vez. E seu riso era igual ao riso de qualquer criança. Assim como seu choro, ouvido enquanto estávamos do lado de fora do estábulo, era igual ao choro que qualquer pequenino ser humano quando nasce.

E eu, na minha humilde condição de montaria escolhida para carregar uma preciosa carga de Nazaré até Belém, compreendi que o Verbo se fez carne não para ser diferente da carne, mas para fazer com que todos pudessem perceber que toda carne pode fazer seu trabalho para buscar ser semelhante ao Verbo.  

Feliz Natal!!!

PS:  O Gabriel apareceu dizendo que daqui a pouco chegarão uns pastores com umas ovelhas e também uns reis magros (ou magos, não entendi direito) montados em seus camelos. Só quero ver ter lugar pra todo mundo aqui dentro.

- Bem que agora a gente podia ir pro Resort Vale de Jezreel, hein José? – disse eu.

- Todos nós já ganhamos o maior presente desse mundo, meu querido burrinho.

E ele estava certo.

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Jesus, o filho do homem- Gibran Khalil Gibran

“Ele era uma montanha em chamas na noite, e era também um ligeiro brilho além das colinas. Era uma tempestade no céu, e era também um murmúrio na névoa da aurora. Era uma torrente jorrando das alturas às planícies para destruir todas as coisas em seu caminho. E era como a risada das crianças.”

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Do burro que levou Maria e a Criança

O rei Herodes, o terrível, tinha mandado os seus soldados irem com lanças e espadas para matar todas as crianças abaixo de 2 anos. – A noticia de que nasceu Jesus  se espalhou que nem fogo na terra, e também Herodes a escutou. Chamou os seus ministros e conselheiros e conferenciava com eles atrás de portas fechadas. Os anunciadores de mensagem haviam dito que a criança recém nascida era denominada “O Rei dos Reis” e era “O Senhor dos Exércitos”, e que haviam chegado de terras longínquas, magos sábios para honrar a nobre criança. – o rei Herodes começou a temer pela sua coroa e sorte e ordenou a terrível matança. O país se tornou um único gemido de mães que irradiavam das montanhas para as alturas em forma de eco.

E os três tinham que abandonar o local do nascimento; procurar uma terra longínqua, fora do alcance do assassino, mas o caminho para lá era cheio de dificuldades, atravessava áreas desertas, montanhas e rios caudalosos, calor e frio ao mesmo tempo. Á pé, os pobres não podiam ir pela longa caminhada. Alguém precisava ajudar. José foi ao cavalo pedir que levasse a mãe e a criança. Mas o cavalo era surdo e fez de conta que não ouviu o pedido e continuava comendo a palha da manjedoura. Maria foi ajudar José com seus pedidos, que eles estavam sendo perseguidos, e que só o cavalo mais veloz os poderia salvar de Herodes. Mas o cavalo não virava a sua cabeça, olhava Maria de lado e continuava a comer, mastigava a aveia e abanava o rabo como querendo se livrar de algo desagradável e levantou a pata para dar coices. Ai, o menino Jesus deu um suspiro, – o cavalo ficou irrequieto, para nada escutar enfiou mais a cabeça no barril de comida e comeu mais ainda, mas ele comia e comia, porem continuava sempre com fome, fome que até hoje persiste com ele. Se encheu de palha e aveia, e não conseguia se saciar e desde aquele gemido do Menino Jesus permanecia com fome o resto do tempo. Assim também o seu filho e todos os seus descendentes. Mesmo quando ele acaba de sair do cocho ainda tem que comer das árvores e tudo cresce no caminho mesmo a grama que cresce entre as pedras das ruas.

Daquela época em diante, quando se negou a levar Maria e o Menino Jesus, o cavalo carrega pessoas que são os seus donos, puxa carroças pesadas. –assim o orgulho do cavalo se acabou.

Maria e José entreolharam-se e continuavam sem solução. Foram ao burro e fizeram o mesmo pedido. Este levantou as suas orelhas para escutar melhor e apesar de não entender nada de montaria, ele imediatamente falou: i-a, i-a. ele abandonou o seu alimento escasso, embora não estivesse bem alimentado, tanto que se podia contar as costelas no seu lombo. Mas ele tomou Maria e a criança nas costas e quando na noite escura saíram da cidade relinchava de alegria porque agora podia se um animal de montaria tal qual o cavalo.

Assim eles partiram: na frente o pai José no seu manto de capuz e com a sua sacola de ferramentas, na mão levava uma lanterna para iluminar o caminho e rezava no ritmo de seus passos pesados. A corda na qual ia o animal ele havia amarrado na cintura. A mãe, com seu manto longo, montava o burro. Maria sentia-se como uma rainha. Ela carregava a criança nos braços, baixava a cabeça e agradava a criança com suas palavras mais carinhosas. – Assim eles se foram.

No decorrer do caminho o dorso do animal ficou ferido pela sela áspera, as moscas se alojaram na ferida viva. Não havia ninguém que poderia dar um conselho. O burro levava firme a sua carga com dor e paciência e não reclamava quando faltava comida. Só às vezes gemia i-a, i-a. chegaram numa casa onde havia uma mula com o filhote. A mula tinha um saco cheio de grama.

 -Dê um pouco de grama para o nosso burrinho, implorou José.

 -“Eu mesma tenho tão pouco.” Disse a mula.

 -“Então, venha conosco e leve Maria e a criança até que sarem as costas do burro.”

 -“Levem vocês mesmos a carga, pelo pagamento de Deus, – Burro é Burro.” – Esta era a resposta da mula.

Deus escutou a conversa e viu o abandono dos três e reprimindo a mula fez morrer a sua cria.

Foi a última mula dessa espécie. As mulas até hoje não procriam. Os três retomaram a viagem. Maria tinha amamentado Jesus e um pouco do leite caiu na ferida do burro. A ferida sarou imediatamente.

José agradeceu a Deus, rezou e fez o sinal da cruz no dorso do burro. A marca da cruz continuou no pêlo do burro de geração em geração. E o burro permaneceu paciente e modesto.

Na longa viagem aprendeu a comer até cardos agrestes. Gostava da comida, mais do que o cavalo da sua aveia.

Na sua modéstia, a vida dura nunca o incomodou e desta maneira se espalhou no mundo inteiro e se orgulha quando um ser humano é chamado de burro. Pois ele sabe melhor o que é um verdadeiro burro.

Fonte: http://www.festascristas.com.br/index.php/advento/advento-historias/457-do-burro-que-levou-maria-e-a-crianca-3o-semana-do-advento-

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O milagre no poço – 1ª semana do Advento

Naquela época, quando José e Maria caminhavam com seu burrinho para Belém, as pessoas não tinham ainda torneiras em casa, daquelas que a gente só abre quando quer água. Não, elas tinham que ir até o poço com baldes e daí tirar a água. Na maioria das vezes, eram mulheres e moças que faziam isso. E quando elas ali se encontravam, gostavam de bater um papinho e contar as novidades.

 Assim também fez Rute naquela noite, quando pegou seu balde e foi até o poço. Mas, quando estava saindo de casa, notou no céu uma estrela brilhante tanto que ofuscava todas as outras, e até mesmo a lua com seu brilho. A moça ficou olhando admirada para ela e se esqueceu do tempo e do que queria fazer. O que será que aquela estrela, que brilhava tão maravilhosamente, queria proclamar? Só quando sentiu os dedos doendo pelo frio, Rute acordou dos seus sonhos e correu rapidamente para o poço. Lá não se via mais viva alma. Todas as moças já haviam ido embora. Rapidamente, Rute colocou o balde na corrente para deixá-lo descer ao poço. Mais aí ela hesitou de novo, pois o espelho de água brilhava como ouro, e aquilo da luz daquela estrela brilhante, que se refletia na água.

- Como isto brilha e resplandece! – murmurava a menina enlevada

– Se a vovó pudesse ver isto!…

Mas a avó estava em casa, sentada em sua cadeira, pois suas pernas haviam ficado fracas com a idade e não a sustentavam mais.

Cuidadosamente, para não revolver a água brilhante, Rute deixou descer o balde. Mas quando o puxou para cima, admirou-se pela terceira vez naquela noite: a água dentro do balde também brilhava como ouro. Com cuidado, a menina colocou o dedo dentro da água e a provou. Tinha o sabor de sempre. Então, Rute tirou o balde da corrente e correu o mais rápido que possível até a avó.

- Veja, vovó – exclamou ela, assim que abriu a porta, – Veja o que estou lhe trazendo! – E então mostrou-lhe a água, que brilhava maravilhosamente como ouro.

- Veja, a água conservou o brilho da estrela resplandecente, para que você também o possa ver – explicou a menina alegremente. Pensativa, a velha mulher olhava para a água dourada. Depois perguntou:

- Que luz será essa, que está começando a brilhar sobre o mundo e cujo brilho a água pura reflete sem parar? – E, virando-se para Rute, disse:

- E nos seus olhos também já começou a brilhar. Cuide bem dela. A noticia da água dourada espalhou-se rapidamente e todas as pessoas corriam para dela pegar. Mas, por mais que tirassem a água, ela conservava seu brilho. Ela o conservou, sim – até quando? Até que o menino Deus nasceu em Belém, e aí então o seu brilho iluminou o mundo.

Fonte: http://www.festascristas.com.br/index.php/advento/advento-historias/454-o-milagre-no-poco-1o-semana-do-advento

 

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Consagração à Santíssima Virgem

A partir de hoje e até o dia 8 de dezembro as porteiras da Fazenda Gira Mundo estarão fechadas. Não, não para vocês que poderão visitá-la quando quiserem. Estarão fechadas para esse burrico que vos escreve nas trilhas da fazenda e zurra, impertinente, na chocheira do Twitter.

E elas estarão fechadas para que esse burrico possa se preparar integralmente para uma grande ocasião. Graças ao trabalho formidável do Padre Paulo Ricardo divulgando a II Campanha Nacional de Consagração à Santíssima Virgem (www.consagrate.com), eu, pobre criatura quadrupede e limitada em inteligência e coragem, consegui remover os antolhos que só me faziam olhar em uma única direção e perceber a grandeza infinita dessa devoção total à Nossa Senhora.

Tolo e perdido pelo som do mundo, não me reconhecia mais nas fotos de minha vida. Como nessa que abre o texto e em que levo Maria e o Menino Jesus em meu dorso, conduzido por um anjo e amparado por José.

Eu, animal desobediente e teimoso, esqueci da carga mais preciosa e mais leve que jamais voltei a carregar porque, covarde, esquivei-me de ser o seu transporte.

Eu, cego por uma falsa sensação de sabedoria e manco por ferraduras que se quebraram contra um chão seco sem o orvalho das Graças de Maria e de Seu Filho, insisti em meus erros e me afastei cada vez mais dos doces afagos que o Menino vez ou outra fazia, brincando, em minha crina durante a longa viagem.

Eu, arisco e saltador, deixei de merecer levar Mãe e Filho em segurança para um lugar em que não fossem perseguidos. E meu próprio coração se tornou lugar imundo em que Eles não teriam nenhuma segurança em parar para descansar por um minuto sem que minha presunção, meu egoísmo e minha heresia não transformassem o repouso em tortura sem fim.

Eu, estúpido e mediocre, que me recusei a carregá-lO pelas ruas de Jerusalém sempre que fui chamado por Ele,  e que – a história não conta – ainda devo ter dando um coice no lenho por ocasião de sua segunda queda a caminho do calvário.

Por tudo isso, eu mereceria ver meu corpo esturricando no deserto e minha alma queimando sob a Terra. Mereceria ser mais uma queixada de burro largada pelo caminho seco e pelo solo rachado desse mundo que pouco se importa com o destino de qualquer burro. Mereceria não ter minhas preces atendidas por nunca atender a um pedido Dela ou Dele. Mereceria ser arrancado da história de Suas vidas, trocado por um camelo ou qualquer outro animal de carga.

Mas Cristo é minha vinha e Maria é meu Oásis. Mesmo diante de tanta arrogancia, teimosia, desobediência, esperneio e burrice, a Doce Senhora me aquece com o seu manto pendente em meu dorso – o mesmo manto azul que envolve o seu Maravilho Filho - durante as longas jornadas frias que caminhamos na escuridão das noites. E o Menino, depois de se tornar o Homem, ainda se lembra de mim e me dá a honra de ser a sua montaria em todo Domingo de Ramos.

Senhor e Senhora, eu não sou digno nem mesmo do pó de suas sandálias, e mesmo assim vocês me quiseram por perto e conseguiram alguma utilidade dessa pobre criatura.

Sabendo disso e que só por Vossa clemência, nunca por mérito algum meu, eu Lhes fui de alguma utilidade, rogo que a Minha Eterna Senhora me pegue por esse  cabresto que, frouxo, vê sua corda arrastando pelo chão, e que me tenha como coisa Sua até o fim dos meus dias.

Maria, toma-me como teu escravo, como teu animal de carga e que eu possa levar, a quem Tu quiseres, as bençãos, as graças e os méritos de todos os meus trabalhos e zurros (orações).

Que Teus anjos possam segurar em minhas rédeas e me conduzir aonde Tu achares que devo ir.  Que jamais se arrebente esse elo entre nós e que eu jamais me perca de Vós. Ainda que uma ferradura se solte, conservai minha disposição em seguir-Te. Que eu jamais me distraia com pastos verdes que não sejam os Teus. Que eu nunca mate minha sede em águas que não sejam aquelas que jorram do Vosso Misericordioso Coração.

E que, por fim, preso a Ti como animal fiel e manso eu possa ser conduzido à Graça de estar novamente diante de Teu Glorioso Filho que, espero, sorrindo dirá:

- Olá jumentinho!,  estavámos te esperando com capim e milho fresquinhos.

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A Ocupação da Reitoria

 

São João do Quentão também possui uma universidade estadual: a Universidade de São João do Quentão. Conta com quatro cursos: Veterinária, Zootecnia, Agronomia e Filosofia. Cada qual com seu núcleo e suas demandas. No geral, nenhum curso tem muito contato com o outro, mas, tirando o curso de Filosofia, os demais compartilham algumas disciplinas e professores. Algumas pessoas famosas de São João do Quentão cursaram a famosa universidade de mesmo nome. É o caso do Nhô Moraes – fazendeiro da Fazenda Sete Praias que fez Agronomia, do Nhô Serafino – tratador de cavalos da Fazenda Meia Lua, da Sinhá Pedrita – ótima veterinária com clinica no centro da cidade. Também passaram pelos bancos da USJQ o Terremoto – touro de rodeio que fez meio período de Veterinária, mas não conseguiu continuar por conta da agenda de exposições e festas,  o Brié – o rato rico da fazenda que tentou Zootecnia, mas preferiu mudar pra outra faculdade numa cidade vizinha que tem Gastronomia, a Marilena Patauí – a psicóloga da fazenda (psico-pata) que cursa uma pós em Filosofia do Engodo, o Min-Hô-Kô – a minhoca maoísta que faz um curso de Filosofia da Invasão.  O Dirceu – o morcego comunista e consultor empresarial que faz curso de Filosofia da Religião e já escreveu até um livro com o título de “Roubando Hóstias:  A Fome de Deus do Proletariado. E também o Fidel -  o bode bolivariano da fazenda, mas ele passa mais tempo fazendo discursos do que propriamente freqüentando o curso de Filosofia da Verborragia. Pelo tempo, 50 anos, já foi jubilado, mas insiste que isso tudo não passa de uma conspiração do (III) Ianques Infiltrados na Instituição.

Pois bem!, São João do Quentão é desses lugares no globo terrestre em que, na maior parte do tempo, reina a Paz de Nosso Senhor. É terra abençoada por Deus, com fartura de produção de alimentos, com criança sadia correndo na praça, com bicho se reproduzindo e enchendo os pastos de mééés, bééés e muuus. Os trabalhadores (gente e bicho) pegam cedo no batente, trabalham de sol a sol e quando é mês de colheita adentram noite e madrugada pra dar conta dos compromissos dos patrões. Os estudantes têm boas escolas (duas pra ser mais exato) onde aprendem português, matemática e o que mais é necessário pra formação de qualquer jovem. Os idosos têm suas rodas de prosa, seus bancos na praça, seus jogos, suas memórias recontadas dezenas de vezes sempre sob o som de enrugadas gargalhadas. Todos vivem sob um manto de respeito pelo outro seja velho ou criança: cada um sabe de seu lugar nessa pequena sociedade e a vida segue com aquela calma e inocência típicas de uma cidade do interior imaginária ou daquelas que nossos avós contavam que eram quando eram pequeninos. Até na única delegacia da região tem é tempo que não pára ladrão.

E com a bicharada é a mesma coisa: cavalo respeitando bezerro, vaca dando benção pra galinha, codorna ensinando burro, beija-flor ajudando gambá a atravessar a rua. Uma dose cavalar de gentilezas de todos para com todos. Acontece que recentemente esse equilíbrio foi quebrado por um evento extraordinário e inimaginável. E bem exatamente no lugar que deveria ser o estábulo das liberdades individuais, da tolerância e do respeito às leis: a própria Universidade. Tudo começou quando três toupeiras do curso de Filosofia das Profundezas – uma matéria eletiva do curso de Filosofia – foram flagradas pelas autoridades policiais consumindo cenouras transgênicas no campus da universidade. Ora, todos sabem que o consumo desse tipo de cenoura é tipificado como crime uma vez que se trata de um produto ilícito. Nada mais normal do que conduzir os três rapazes até a delegacia para esclarecimentos.

Pois é!, seria normal se não fossem as toupeiras envolvidas no consumo irregular de cenouras alunos do curso de Filosofia da USJQ. Na mesma hora em que os três estavam sendo abordados pelos policiais (Sgt. Jobson – um galo, Cabo Anselmo – um bode, Sd. Ronivan – um canário da terra) bateram pra todos no prédio da Filosofia que os “botas pretas” estavam agindo com truculência contra alunos da instituição e, sendo assim, estavam agindo de forma reacionária, fascista e ilegal uma vez que dentro do Campus da Faculdade toda a comunidade acadêmica gozava de imunidade plena.   

Circo armado, eis que surgem, como um batalhão de mulambos, vários alunos dos cursos da Faculdade de Filosofia tentando impedir que as três toupeiras fossem conduzidas pela Polícia. A quantidade de bicho que apareceu diante dos policiais foi tão grande que imediatamente o Sd. Ronivan pediu reforços pelo rádio da viatura:

- Central, Central…Papa Mike 070 pedindo reforços na USJQ…

- Prossiga 070! Qual a ocorrência? (respondeu um pombo aspirante da coorporação do outro lado do rádio)

- Policiais cercados pelos alunos da USJQ que estão tentando impedir a ação policial num flagrante de consumo de cenouras transgênicas. Roger!

- Ééé… o Roger? Eu acho que o Roger não veio hoje…peraí que eu vou procurar ele.

- Não, cabeça de rolinha…Roger é o mesmo que dizer câmbio. É só pra você saber que eu já terminei de falar.

-  …

- CENTRAL! CENTRAL!

(voz ao longe no rádio) – Reginaldo, viu o Roger por aí?

- CENTRAAAAAAALLLLLL!, gritou o Sd. Ronivan desesperado de dentro do carro que, já cercado, começava a ser empurrado pelos manifestantes. Duas vacas e duas antas de peso faziam essa função, enquanto sabiás, saíras e biquinhos de lacre tentavam distrair o Sgt. Jobson e o Cabo Anselmo que estavam do lado de fora da viatura segurando as três toupeiras que de tão dopadas pelo efeito das cenouras transgênicas, dançavam alegremente acreditando que toda aquela multidão se empurrando em volta de um carro com luzes brilhantes era porque estavam em alguma rave, mas que não se lembravam de como foram parar lá.

O Sgt. Jobson ameaçou puxar o spray de pimenta da Fazenda Boca de Fogo – a mais ardida da região -, mas foi detido por uma galinha que o atingiu com um livro do Foucault. Não, não com o livro objeto físico, e sim com uma citação do pensador.

Cacarejou ela:

- O discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo porque, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar.

Sgt. Jobson ficou atordoado pela citação, não entendeu do que diabos a galinha estava falando e num momento de distração deixou cair o spray de pimenta no chão.

O Cabo Anselmo, por sua vez, tentava argumentar com um grupo de estudantes – 3 cotias com penteado moicano – que as toupeiras só seriam levadas à delegacia para um depoimento e que seriam liberadas logo em seguida. No entanto, as três cotias sacaram outra citação, dessa vez de Jean Paul Sartre:

- O homem não é a soma do que tem, mas a totalidade do que ainda não tem, do que poderia ter.

Do mesmo modo como aconteceu com o Sgt Jobson, o Cabo Anselmo não entendeu a frase e, distraído pelo impacto da falta de sentido, perdeu seu cacetete e seu revolver no meio da confusão.

Dentro da viatura o Sd. Ronivan continuava tentando contato com a Central enquanto alguns manifestantes batiam na janela com livros com a foto do que para o pobre soldado parecia ser o  Papai Noel (O Capital). Atordoado por achar que ainda estava longe do Natal, o soldado ainda assim insistia pelo rádio:

- CENTRAL! CENTRAAAALLLLLL! Acudam em nome de Nosso Sinhô Jesus Cristo!

- …

CENTRAAAAAAALLLL!!!!

(Voz de fundo do pombo aspirante falando com outra pessoa na central) – Ô Aristides, sabe se o Roger vem trabalhar hoje?

Nesse exato momento os manifestantes ocupam a reitoria da universidade, exibindo cartazes com palavras de ordem, roupas de brechós indianos, postando fotos da ocupação no Facebook e mantendo os policiais em cárcere privado sob tortura através do método das citações filosóficas sem nexo.   

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Educação em Casa, Ensino no Galinheiro

 

Venho de uma família de burros humildes, puxadores de arado, carregadores de fardos, tropeiros viajantes de longas jornadas levando nas costas os suprimentos das comitivas. Gente, digo, bichos danados de trabalhadores, daqueles que se levantam antes do sol se levantar e não deitam senão depois que todos já foram se deitar. Vigilantes burros, estradeiros burros, trabalhadores incansáveis burros. E de tudo que a lida nos deu, além de calos nas ancas e cascos quebrados de tanto chão duro pisado, foi conhecimento da vida. Desses que escola nenhuma prepara… desses que só a família pode contar e tentar preparar.

Mas lembro de minha primeira infância, ainda burrico, magrelo, caneludo e feio (não essa garbosidade que vos escreve agora) na Escolinha da Tia Sueli num canto do galinheiro na Fazenda Gira Mundo em São João do Quentão. Dona Sueli era uma codorna já velhota que dava aulas para todas as séries e espécies de bichos da fazenda. De tão boa professora, havia quem dissesse que até aula pra ser humano ela seria capaz de dar. Versada e escolada em língua portuguesa, inglesa, codornesa e até marrequesa, também tinha conhecimentos de latim e grego, arranhava um pouco do alemão devido a ascendência e, naquele ano mesmo, estava estudando mandarim porque, dizia com propriedade, a China se tornaria um dos players do mundo moderno. Sabia Tia Sueli que parecia entender de tudo e mais um pouco.

Como muitas professoras de sua época e também das de hoje em dia, Tia Sueli sofria com a estrutura precária do galiheiro onde eram ministradas suas concorridas aulas. Não havia bicho, filhote que fosse, que os pais não fizessem questão de matricular na escola da Tia Sueli. E era bicho de tudo que é porte, de todo tipo de sotaque. Tinha galinha (estúpidas, coitadas!), tinha coruja (interessadas, mas sonolentas logo cedo), anta, pato, cavalo, marreco e até jabuti (que sempre chegava atrasado). E os pais deixavam claro pros seus filhotes que Tia Sueli tinha a autoridade e a vara de goiabeira pra aplicar o corretivo necessário pro animal que não demonstrasse ter educação em casa.

Mesmo assim, nunca vi Tia Sueli usar do galho da goiabeira pra aplicar nenhum castigo físico nos moleques – talvez porque ela não tivesse físico pra segurar aquela varinha que deveria ser leve pra porco, mas extremamente pesada pras codornas. Eu me sentava no fundão do galinheiro – não porque eu fosse peralta, mas as orelhas atrapalhavam os outros alunos se me sentasse nas primeiras carteiras -, perto da grade que dava pro pátio voltado pra casa grande. E era muito comum me distrair com a movimentação das crianças, filhos e filhas e coleguinhas do patrão, e não prestar muita atenção na aula. Mas Tia Sueli conhecia a índole dos burros e também o meu ar de filosofo eqüino perdido na contemplação das artes das crianças, e ainda assim não me repreendia. Com ar tranqüilo só chamava a minha atenção de modo até carinhoso:

- Filonéscio, atenção à aula! Ainda vai chegar o dia em que poderás compreender o que se passa no coração dos homens, mas pra isso precisas te entender como o burro que és.

Os outros alunos riam do “burro” e debochavam de um burro na escola. Mas tia Sueli os repreendia de imediato e colocando disciplina onde ela começara a faltar, conduzia a aula com maestria. E nos falava dos grandes homens da humanidade, de seus feitos, de seus legados. Mas também com muita consideração reservava especial atenção para falar da importância dos animais para a evolução da vida na Terra. Falava dos feitos heróicos dos cavalos e pombos-correio, da contribuição das vacas, da fidelidade dos cães, da resistência e disposição dos burros etc.  Só não lembro de ter falado nada das ovelhas…bem, deixa pra lá!

A escola era um lugar de descoberta do que era desconhecido. Não era um local para que professor aprendesse com aluno sobre a sua realidade ou seu contexto social.  Imaginem se a Tia Sueli iria perder seu tempo ouvindo toda uma série de histórias sobre o cotidiano de cada bicho da fazenda. Não era um lugar de troca porque aquele monte de filhote não tinha nada pra trocar, mas tudo pra absorver. E o mundo seguia seu caminho sem tropeços, sem culpas e sem tolices. Havia respeito entre os alunos e deles para com a Tia Sueli.

E o único exemplar de um livro do Paulo Freire que entrou naquele galinheiro servia de tablado pra que a sabia codorna pudesse enxergar os alunos sentados lá no fundão rindo das travessuras das crianças no balanço.

- Acorda Filonéscio! A aula já acabou!

- Sim senhora!

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Tonhão e o Acontecimento do Ano

 

 

Cumprimentou apressado quase na mesma velocidade com que passou:

- Tardipessoal….!!!!

- Eita, vai aonde com essa pressa toda Tonhão? – perguntou virando o pescoço quase todo o Azambuja – a coruja professor de História.

- Nãodátempodefalaragoratoatrasado – berrou o Tonhão com a voz já sumindo enquanto ele batia asas virando uma curva na alameda que dá pro pomar.

O Tonhão é o beija-flor bombeiro florestal da Fazenda Gira Mundo e toda vez que a gente vê um bombeiro correndo, manda o bom senso e o juízo do instinto de sobrevivência estar atento para os piores acontecimentos.

O Azambuja comentou comigo:

- Que será que ta acontecendo pra ele passar nessa pressa toda?

- Faço idéia não, meu caro  professor. -  respondi, mas não sem um ar de preocupação.

Tonhão era sujeito direito, prosador, conversador, falador. Gostava de conversa e falava rápido quase como na velocidade com que batia as asas. É certo que estava sempre voando apressado pra cima e pra baixo, se não pra combater incêndios – raros aqui na região – mas para, sem querer, polinizar as flores e fazer xarope dus bão que sua avózinha – uma doce senhorinha beija-flor – vende num oco de um abacateiro lá no centro de São João do Quentão.

Mas o que haveria de fazer com que o Tonhão passasse assim tão apressado que até o cumprimento ficou na levada do vento? Será que também estava planejando greve? – não sei!, agora virou moda greve de bombeiro, policial etc. Só quem não tem férias nem faz greve é bandido.

Ou haveria o Tonhão também se seduzido por alguma ONG ambientalista? Tô vendo tudo: vai voltar vestido numa camiseta do “grinpissi” e reclamando das sacolas plásticas dos supermercados. Xiiiii, vai ser difícil aturar. Sujeito quando entra pra essas igrejas eco-pentelhotais , fica mais abilolado que minhoca olhando pro Sol.

- Será que tá pegando fogo lá pros lados do pomar? – perguntou o Azambuja, parecendo também estar checando todas as possibilidades da pressa do beija-flor.

- O céu está azul e não vejo fumaça lá praquelas bandas. – respondi, descartando a possibilidade.

De repente, mais um monte de bicho começou a passar correndo na mesma direção do Tonhão.

Primeiro vieram outras beija-flores (fêmeas, muitas delas, apressadas e frenéticas, rindo alto entre cochichos e aquele zum-zum-zum do bater  de asas)

Depois se seguiram algumas saíras, canários-da-terra, biquinhos-de-lacre e até pardais (todas fêmeas também)

- Estranho! – exclamou o Azambuja.

Não demorou e vieram mais 20 galinhas, 8 peruas, 6 porquinhas e 35 codornas…

- Muito estranho! – continuou o Azambuja me olhando e olhando praquela procissão virando o pescoço freneticamente quase que 360 graus.

Aí o negócio complicou de vez. Surgiram correndo mais 15 patas, 4 antas, 22 marrecas, uma capivara que estava hospitalizada não havia dois dias e uma andorinha norte-americana com um forte sotaque ianque.

- Filonéscio, ou a fazenda pegou fogo ou praonde foi o Tonhão devem estar construindo outra Arca de Noé e eu é que não sou trouxa de ficar aqui esperando o dilúvio. – decretou o Azambuja com toda a razão.

- É!, vamos lá ver o que é isso. – concordei já que aquela correria no meio da tarde não era algo normal.

Seguimos pela alameda que leva pra área do pomar, mantendo a direita porque a bicharada continuava passando correndo, voando e até nadando já que o rio serpenteia por trás dos campos, desaparece num sumidouro antes do pomar pra aparecer de novo lá na frente.

- Sai da frente!, gritou a Leopoldina – a vaca imperatriz -  acompanhada de mais duas amigas do curso de Cup Cakes Lights.

- Oh Dona Leopoldina!, que negócio é esse que todo o povo ta correndo pro pomar? – perguntou o Azambuja.

- Ah, professor, é uma coisa linda, o evento do ano na Gira Mundo, lindo, lindo, lindo! – bradou a Leopoldina dando saltinhos com as duas vacas colegas de curso.

Ai que aquilo já estava ficando enigmático demais pro meu gosto. O que haveria de ser? Disco voador não era porque ainda tava muito claro pra esses espetáculos, rodeio não era porque o Terremoto estava em uma cidade do interior de Minas só pra uma exposição agropecuária. Leilão de cavalos também não porque o Cristiano Ronaldo também tinha passado correndo todo cerelepe com a Jéssica Alba.

Por fim, depois da longa caminhada que leva até o pomar, parecendo estarmos numa procissão de Corpus Christi ou, mais ainda, no próprio êxodo dos hebreus do Egito ou, pior ainda, um  remake deWoodstock só com bichos (de verdade), chegamos ao lugar pra onde todos da Fazenda Gira Mundo pareciam  ter ido. Até de outras fazendas da região tinha bicho como pude comprovar ao avistar os cumpadres Chico Torres – um tamanduá-bandeira da Fazenda Sete Léguas – e o Noves Fora – um macaco matemático amigo do Nove Horas – o macaco metódico daqui da fazenda – que veio lá da Porco do Mato.

- Taarrrrrdi, cumpadres?! – caprichou no caipirês com bastante simpatia o Azambuja.

- Tardi!

- Tardi! – responderam os dois sem nenhuma empolgação.

- Até vocês por aqui? – perguntei sem tirar os olhos de uma grande aglomeração junto a um pequeno, pequeno mesmo, palco montado na sombra de uma tamarineira.

  – Pois é!, – respondeu o Chico Torres – a mulher ficou torrando a paciência que queria vir.

- E a minha? – completou o Noves Fora – Disse que se a gente não viesse nada da minha vitamina de banana com aveia por uma semana.

E lá perto do palquinho sob os galhos da tamarineira, coisa distante ainda uns 100 passos de onde estávamos, eu continuava ouvindo a gritaria de um monte de fêmeas.

- Já sei!, deve ser reunião da Avon. – chutou o Azambuja.

- Não! – respondeu o cumpadre Chico Torres.

- Sorteio pra um final de semana naquele SPA que inaugurou recentemente?

- Não!

- Culto do Hans – o cão pastor -  com sessão de Desencapetamento Total ou Parcial na promoção?

- Não!

- Promoção de panelas de barro? – arrisquei só de deboche.

- Hehehe!, também não. Vão lá dar uma olhada! – incentivou o Chico Torres

E eu e o Azambuja que, afinal de contas, não estávamos fazendo nada, resolvemos atravessar aquele mar de gente, digo, bichos, pra ver que diachos acontecia no pé da tamarineira.

Conforme a gente ia chegando mais perto, o burburinho dava lugar a gritos histéricos da bicharada. Coisa de louco: um monte de animais passando mal, ambulância do pronto-veterinário de plantão até com desfribilador. Mais perto, cerca de 10 passos, mas sem conseguir enxergar ainda do que se tratava, só percebia uma enorme quantidade de jornalistas da Folha de São João do Quentão e tantos flashs que deixaram o Azambuja tonto.

- Não vai passar mal agora, né? – perguntei preocupado.

- Eu tenho hábitos noturnos, burro. Essa quantidade de luz está acabando comigo.

Mas o Azambuja puxou um óculos escuro – meio démodé – e nós continuamos até bem perto do epicentro. Chegando lá, depois de passar a cara pelo suvaco suado de uma ema de 2 metros de altura,  eis o cenário com que nos deparamos:

Um palco do  tamanho de uma caixa de sapatos  (acho até que era alguma caixa de sapatos de alguém da casa grande), forrado com um pano verde de veludo parecendo trapo de mesa de carteado. Uma lagartixa limpava de tempos em tempos o que parecia ser a passarela, tirando as folhas da tamarineira que porventura caiam no palco. Um vagalume era o responsável pela iluminação do evento e uma gralha fazia a locução. Era tanta produção que parecia o tapete vermelho – nesse caso, verde – do Oscar.

E os flashs continuavam com tanta intensidade que tive de conduzir o Azambuja, mesmo de óculos escuro – até a zona do gargarejo do palco. Duas graúnas negras como uma noite sem lua, num estilo meio gótico, meio Amy, reclamaram do empurra-empurra, mas eu acabei conseguindo espaço alegando que a coruja era deficiente visual.

E então chegamos bem perto do palco, primeira fila. Finalmente descobriríamos que fuzuê era aquele. E qual não foi a surpresa ao ver o Tonhão – vocês se lembram, o beija-flor bombeiro florestal – entrando na passarela de caixa de sapatos vestindo uma sunga menor do que a unha do dedo mindinho de um bebe. Ficamos – eu, na verdade, pois o Azambuja ainda não conseguia enxergar nada na linha de tiro de tantos flashs – abismados. A correria toda do Tonhão era pra não se atrasar pra sessão de fotos do calendário dos bombeiros de São João do Quentão. Era uma cena que não valia a pena todo o sacrifício pra chegar perto como fizemos. Sorte do Azambuja que continuava atordoado e sem ver nada, apenas clarões.

Cada vez que o Tonhão mudava de posição para uma nova fotografia, as  fêmeas entravam numa espécie de delírio coletivo: era uma gritaria enlouquecedora. Muitas passaram mal e foram socorridas. Algumas ficavam mais contidas, pois sabiam que os maridos estavam observando de longe (caso das senhoras do Chico Torres e do Noves Fora). Mas o restante parecia tragado por uma hecatombe nuclear como se  um único evento pudesse reunir a histeria de fãs dos Menudos e Beatles juntos.

No ápice da alucinação coletiva, quando o Tonhão tirou umas fotos simulando retirar a pequenina sunga, a força uterina das fêmeas foi tão grande que eu acabei me soltando do Azambuja. O pobre coitado ficou lá perdido no meio daquela tempestade de hormônios femininos enquanto eu nadava por sobre patas e asas, tentando sair daquele lugar. Na última vez que consegui olhar pra trás,  vi o Azambuja sendo jogado de um lado pro outro feito uma petaca com grandes olhos: uma cena aterradora!

Eu consegui voltar pra fazenda um tanto arranhado e prometendo nunca mais ter a curiosidade de querer saber o que se passa no meio da turba. O Azambuja, pobrezinho, não teve a mesma sorte. Teve o óculos roubado, perdeu seu livro de cabeceira e foi hospitalizado em virtude da fotofobia e das escoriações provocadas por aquelas amazonas enfurecidas. Está se recuperando, mas também já prometeu pra si mesmo que quer distancia de qualquer manifestação que reúna muitas mulheres ao mesmo tempo e  no mesmo local.

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Janela das Lágrimas

 

Pros lados da antiga sede, bem por onde as comitivas chegavam de longas e exaustas semanas de viagem, fica o Rio Formoso. Há um bom tempo, todo mundo – bicho e gente da fazenda – costumava ir se banhar no rio já que ficava bem perto de tudo. Mas depois que a fazenda cresceu, a sede mudou de lugar e até os celeiros tiveram de andar pro mesmo rumo. O rio ficou meio esquecido do povo já que agora tem piscina com cascata da água canalizada do mesmo rio que também irriga a lavoura. Os bichos hoje tomam banho no açude e, tirando dias de frio, é bom também desde que seja quarta-feira, dia do meu banho.

O Rio Formoso ficou lá, esquecido, pra além de onde a estrada faz uma curva que quase parece querer voltar quem está indo embora. Se for pela estrada na hora perto do por-do-sol, mantenha a direita e você o verá, surgindo por detrás de algum descanso que a fileira de arvores dá ao longo da estrada, exibindo sua água dourada pelos raios do fim de tarde. É bonito!, é formoso como diz o próprio nome. Mas ficou lá meio que esquecido de todos quando o patrão mudou a sede da casa grande pra modo de atender as outras necessidades do agronegócio.

Pois bem!, ainda assim, quando dá tempo, quando a carroça por um milagre não se enche de mais fardos ou quando o arado deixa de rasgar a terra agarrado às minhas costas, costumo pegar a estrada na direção da velha sede e, descendo por entre as árvores, fico por lá olhando aquele cenário que de tão lindo, é difícil acreditar que tantos tenham esquecido dele ao ponto de não fazer esforço pra retornar. Nem nas pedras da parte rasa se vêem mais as lavadeiras, mas com bastante atenção à memória você ainda consegue ouvir alguma canção entoada no ritmo do surrar das roupas contra o tapetão de pedras. Mas reza a lenda que o lugar foi palco há muitos anos de um conto mágico, de tristeza sem fim por um mal de amor. Que uma moça na flor da idade perdeu por completo a vaidade quando viu partir, sem dó nem piedade, o moço por quem se apaixonou. O rapaz, decidido a mudar de vida; largou, na curva daquele rio, moça, paixão e até bebida em busca de um sonho na capital: fazer fortuna, fazer carreira, sair daquela pobreza certeira dos que vivem em terra que dava mais poeira do que frutos. E foi o rapaz, coitado!, iludido!, achando que o mundo lá fora poderia lhe dar mais vida que aqueles lindos olhos que ele deixou chorando numa janela seca antes da curva do rio. E, pra não dizer que o moço não se arrependeu, segurando as garras que o corvo do arrependimento um dia crava em nosso peito, escreveu pra ela esses poucos versos de um derradeiro leito:

Janela das Lágrimas

Para lá dos montes afastados havia outro mundo, um mundo temeroso
GRACILIANO RAMOS

Deixei a luz fosca daquele luar
Na curva do rio que embalava meu sono.
Na esteira de estreitas estradas
Pisei as folhas cadentes do outono.

Deixei um mundo sem paz e sem dono,
E meus pés, levantando a poeira,
Deixaram um choro pungido
Sob um teto sem eira e nem beira.

Pra trás, as velhas casas da aldeia,
As poucas taipas caiadas de branco.
Levei comigo uma dor escondida
Pelo rio sem calado e barranco.

E o rapaz daquele desejo franco
Seguiu a pintar sua nova aquarela
Sem lembrar das lânguidas lágrimas
Debruçadas em uma seca janela.

Nem se voltou ao cruzar a capela;
Afastado da luz de seus olhos castanhos,
E levando nos dele só um opáco vazio
Sobre um peito marcado de lanhos.

Se da janela, voltada aos rebanhos,
Das amargas lágrimas brotar a semente
Da saudade daquele amor que se foi,
Eu peço ao meu Deus tão somente

Que a dor desse corte se ausente,
E que a flor que secou por meus planos,
Floresça na terra frondosa,
Diferente da lívida rosa dos últimos anos.

Poema divulgado pela primeira vez em 2008
http://anemaecore.blogspot.com/2008/08/janela-das-lgrimas.html
 
Publicado no livro “Talentos: as melhores poesias do primeiro concurso digital”.
Editora MM Comunicação Integrada LTDA.
ISBN. 978-85-63063/00-7
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Fidel e a Revolução Virtual, ou: – Quem vai tirar o bode da sala?

Fidel, como muitos que acompanham o que se passa por detrás das extensas cercas desse blog já sabem, é o bode bolivariano aqui da Fazenda Gira Mundo. Está aqui nessa ilha de tranqüilidade há muito tempo – uns 50 anos, no mínimo – mas vive agitado com qualquer acontecimento que mude um pouco a rotina da roça. Vive resmungando (como todo bode velho) acreditando que a modernidade dos dias de hoje, aliada ao capitalismo selvagem estão modificando o modo de vida pelo qual ele batalhou tanto na juventude. Os bichos da fazenda não dão muita bola pra ele. O povo da casa grande também nem lembra que ele existe. Tirando uma ou outra ocasião extraordinária como, por exemplo, quando recebe visitantes famosos como uma maritaca faladora de Caracas ou de um velho amigo anta de São Bernardo do Campo, Fidel passa seus dias de modo quase imperceptível na fazenda.

Pois bem!, mas chegando numa idade em que as recordações do passado insistem em assombrar os pensamentos do presente, Fidel começou a se distanciar da realidade. Não que toda a sua vida não tenha sido de pensamentos que desafiaram a realidade. Mas, na juventude, ele tinha forças para moldar a realidade à sua volta da forma como bem queria. Agora não era mais assim: nem mesmo os jovens de espírito sempre revolucionário por estupidez ou rebeldia – ou as duas coisas juntas – davam mais bola para os discursos longos e cheios de prosopopéias do antes temido comandante-em-bode.

Esse tipo de coisa dava um desgosto profundo no Fidel, sempre tão acostumado a liderar outros bichos durante a sua idade de ouro. Ocorre que o capeta está sempre pronto a soprar em nossos ouvidos idéias idiotas como se fossem a solução para os problemas do mundo. E com o Fidel, que viveu toda uma vida dedicada a idéias estúpidas, não poderia ser diferente.

Tudo começou quando o Alipio Neto – um moleque endemoniado de 7 anos que é neto do patrão – ganhou um tal de Wii que quem viu disse que era uma espécie de vídeo game. Segundo palavras do Maçarico – o gato da casa grande – é um aparelho que liga na TV e as pessoas acabam virando bonequinhos na tela do equipamento e conforme vão se movimentando do lado de fora, os bonequinhos vão se movimentando do lado de dentro imitando o movimento do sujeito que pula e se sacode do lado de fora. Entenderam? É um negócio difícil de explicar, de entender…enfim, coisa de gente.

Acontece que o tal do Uí (acho que é assim que se pronuncia) virou uma febre entre os humanos da casa grande. Todo mundo da família se reúne nos finais de semana pra jogar o tal do jogo do moleque. O Maçarico disse que estão fazendo até campeonato. Até o patrão mais a patroa jogam o tal do joguinho se balançando na frente da TV. Sei porque fiquei espiando pela janela outra noite dessas. Eu e o sacana do Muçarela que não cansava de fazer piada com os quilos a mais da Dona Patroa.

O joguinho virou febre mesmo na fazenda. Logo estavam vindo outras famílias de fazendas vizinhas pra jogar também. Veio o povo da Fazenda Esmeralda, da Fazenda Sete Léguas e até da Fazenda Fica Longe que, como o próprio nome já diz, é coisa de dois dias de viagem por dentro das outras terras até chegar aqui.

E com esse reboliço todo de gente chegando de carro, trator, carroça e até a pé vindo do centro da cidade, o Fidel entrou em parafuso, surtou, endoideceu, pirou na batatinha. A fazenda quase nunca recebe visita dessa variedade e quantidade. Vai!, quando muito em mês de festa junina, aniversário de alguém da casa ou quando morre alguém muito querido do patrão e o povo inteiro se junta pra beber o defunto. Mas isso dura um dia – no máximo dois – como no caso em que o Cumpadre Roberval morreu e deu um salto mortal (deveria ser vival) no meio do velório, caiu de pé em cima da tampa do caixão, fez uma profecia ao estilo de Nostradamus, deu uma carreira pra fora da casa, trupicou na escada e bateu a cabeça no degrau morrendo de novo. Coitado do Cumpadre Roberval!, morreu duas vezes no mesmo dia e teve dois velórios: no segundo se certificaram de amarrar bem a “Daiane dos Santos” no caixão. Vai que ele resolve dar outro triplo twist carpado no cemitério? Mas isso já é uma ouuuutra história que não cabe contar aqui.

Onde eu estava mesmo? Ah, sim…pois bem, o Fidel. O Fidel, vendo aquele alvoroço de gente e bicho e veículo e coisa e tal, decidiu que era o momento que ele precisava para pregar novamente seus ideais bodevarianos a toda aquela gente. Sabia que não teria outra oportunidade como aquela e, agora, tinha um inimigo a derrotar, um inimigo que simbolizava a sociedade de consumo, a burguesia opressora, o Capitalismo hipnotizador das mentes e devorador dos corações do povo e dos bichos simples do interior.

Decidiu que era chegada a hora de fortalecer a revolução que ele implantara havia 50 anos naquela mesma fazenda e que agora estava enfraquecida pelo desinteresse dos mais jovens, alienados de tudo, vitimas das futilidades cosméticas imperialistas. E para isso, nada melhor do que valer-se do próprio inimigo para atrair novos simpatizantes à sua velha causa. Ele iria derrotar essa ameaça a partir de seu interior como prega a velha e eficiente tática comunista.

Numa noite de sexta-feira, depois de esperar todo mundo ir dormir e sabendo que para o final de semana já havia um campeonato do tal do Wii marcado na casa grande, o Fidel deixou o celeiro de forma silenciosa e, de algum jeito que ninguém soube como até hoje, conseguiu entrar na casa do patrão na calada da madrugada. Quando amanheceu, o primeiro que deu de cara com o bode no meio da sala foi o remelento do moleque Alipio Neto. O guri deu um grito de susto, mas quando viu que a TV estava ligada e o Fidel mastigava o controle do Wii, fez aquilo que todo moleque que tem pacto com o Sete-Peles faria: deu um chute no meio das bolas do Fidel que, por pouco, não engoliu o controle remoto do vídeo-game. Pobre Fidel, mal conseguia segurar as lágrimas que brotaram no canto dos olhos.

- Essa é uma reação desproporcional desses burgueses insensíveis quando o proletariado reclama pra si o resultado da Mais-Valia. – sussurrou o Fidel com uma voz fininha e com as pernas traseiras cruzadas e ligeiramente flexionadas.

O garoto Alipio Neto correu pra cozinha feito um foguete onde parte da família se preparava pro café da manhã e, gritando e chorando, foi reclamar com o avô que aquele bode fedorento estava lá na sala comendo o controle remoto do bendito jogo.

- Como é possível? O Fidel está na nossa sala? – perguntou surpreso o patrão.

Foram todos pra sala e deram de cara com o Fidel sentado no sofá mastigando o controle do Uí.

- Nossa!, que fedor. – reclamou a Dona Patroa da catinga revolucionária do Fidel.

Duas sobrinhas-netas do patrão vomitaram no tapete por causa do cheiro do bode e o moleque Alipio Neto mesmo aperreado por seu vídeo-game estar na boca do Fidel, não pode conter a gargalhada de deboche das primas. Os funcionários que estavam na casa não tinham jeito no trato com os animais. Só tinha cozinheira, arrumadeira… ninguém tinha a mínima ideia do que fazer pra tirar o bode da sala. O patrão mandou então buscar os peões pra ver como fazer pra tirar o Fidel que agora estava deitado no sofá com o controle entre os dentes. Só que não tinha peão na fazenda, pois uns tinham levado uma comitiva pro Mato Grosso do Sul e os outros estavam na estrada trazendo mais gente pro campeonato de Uí.

- E agora, como faz, Alipio?, perguntou a Dona Patroa impaciente com o bode sapateando no parquet paulista de sua bela sala de visitas.

O patrão, apesar da confusão que o Fidel estava aprontando, gostava do danado do bode. Afinal, foi um dos primeiros bichos que ele teve quando ainda dava pra ver as cercas que limitam a fazenda. Hoje, só com GPS ou naquele outro tal de Google Maps pra ver em que lugar foram parar as cercas da Fazenda Gira Mundo. De olhar pro horizonte não se vê é nada: só terra verde plantada de tudo, subindo e descendo colina e, até onde os boizinhos são do tamanho de joaninhas, é tudo do patrão. E por isso, ele também sentia que tinha uma divida com o Fidel já que começou lá atrás vendendo leite de cabra e os cabritinhos que outra coisa não eram que os próprios filhotes do velho bode.

Mas vai que começaram a chegar as visitas pro campeonato de Uí. Todo mundo se acotovelando na porta da sala pra ver o bode maluco que continuava mascando o controle remoto do jogo e se balançando na ponta dos cascos.

- Vamos deixar ele aí que depois se cansa e vai embora. – decretou o patrão chamando o povo pro almoço, mas não sem uma certa piedade do bicho no intuito de evitar ter de mandar os peões que chegaram com as visitas botarem o velho bode pra correr da sala.

E com isso ficaram só o Fidel, o Uí e o Maçarico na sala. Não havia a platéia que o Fidel esperava que chegasse pra ouvir o seu demorado discurso. Não que ela não tivesse vindo, mas ninguém agüentava o cheiro de bode de suas idéias caducas. Preferiram ficar lá fora mesmo, proseando, dedilhando viola e comendo churrasco.

E assim a revolução do Fidel ficava ali: latente, mas esquecida de todos. Nem mesmo o Maçarico dava bola pros resmungos do bode. Dormiu de ronronar enquanto o Fidel permanecia reclamando com o controle remoto entre os dentes.

Por fim, lá pelas cinco da tarde, bateu a fome e o Fidel teve de sair pra buscar alguma coisa pra comer. Quando meteu as quatro patas pra fora da casa, o neto do patrão, como um relâmpago, apareceu atrás dele e mandou-lhe outro chute no meio das bolas, fechando a porta da sala nas suas costas logo em seguida. O Fidel dessa vez não conteve o grito de dor:

- Méééééééeééu saco, seu pequeno burguês filho de uma que ronca e fuça!

Os convidados que almoçavam junto à churrasqueira só ouviram as duas primeiras letras da frase gritada pelo Fidel e quando chegaram na sala deram de cara com o capeta do moleque fazendo careta pro velho bode pela porta de vidro.

Então todos puderam pegar seus lugares – não sem uma boa dose de álcool no controle remoto e um spray de bom ar na sala – para começarem o campeonato de Uí.

O Fidel?

Bem, ele voltou mancando pro celeiro, um bocado chateado por não ter conseguido fazer a sua nova velha revolução; mas, passado o final de semana, não conseguia esconder dos outros bichos uma ponta de satisfação e um sorriso no canto da boca ao saber que ninguém na casa bateu seu recorde no Mario Sports Mix.

Era, de alguma forma na cabeça do Fidel, uma demonstração incontestável da superioridade intelectual dos revolucionários de esquerda. Isso ninguém tiraria dele. Ele havia derrotado o inimigo em seu próprio território virtual. E agora estava tudo gravado na página de scores do tal do Uí.

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