Os progressistas sempre fizeram o seu currículo político defendendo a causa dos mais pobres. Seria justo se não fosse de forma populista e irresponsável. Sempre defenderam a ocupação das encostas e a permanência dos moradores nas favelas, alegando uma ligação histórica e cultural dessas comunidades com o morro em que vivem. Alguns chegam ao absurdo de defender o direito dos moradores de rua a dormir no relento, em praças que são transformadas em lugares inacessiveis às demais pessoas durante o dia, sob as marquises e debaixo de pontes e viadutos em que, muitas vezes, são vítimas também da violência das noites e acabam engrossando as estatísticas dos homicidios.
Viver nas ruas para os progressistas é um direito do cidadão já desprovido de sua cidadania. Qualquer medida dos governos que pretenda retirar essas pessoas da rua ou desocupar as encostas dos morros sempre foi vista como uma empreitada “higienista” e “fascista” das autoridades. Em sua poderosa retórica, pretendem dar voz e “abrigo” aos mais carentes com um discurso oco e mentiroso sobre quem se preocupa realmente com eles.
Fazem da questão habitacional – um sério problema do país e mais especificamente da cidade do Rio de Janeiro pelo menos desde a Guerra de Canudos – uma plataforma eleitoreira que não apresenta nenhuma solução; apenas a garantia de que as pessoas podem e devem morar em encostas com 60 graus de inclinação, com pedras de 80 toneladas pairando sobre as suas cabeças ou em áreas de várzea para aonde certamente o leito dos rios se expandirá durante grandes temporais.
E quando toneladas de pedras vêm abaixo ou metros de água vêm acima e devastam tudo, causando prejuízos para as cidades, ceifando vidas e destruindo famílias, as autoridades colocam a culpa uma nas outras (união nos estados e esses nos municipios), no clima, no aquecimento global, em São Pedro e em todos que não possam ser penalizados pelo verdadeiro crime de omissão que, no fundo, é um barril de pólvora acumulada durante os anos, aguardando apenas o final do pavio (as chuvas) para detonar tragédias como a que estamos presenciando e vivenciando na Região Serrana do Rio de Janeiro.
No caso da recente tragédia no Rio de Janeiro, a culpa é cumulativa e deveria ser dividida e cobrada de todas as autoridades que ao longo de décadas permitiram ou se omitiram quanto à ocupação daquelas regiões. Independente dos partidos políticos envolvidos, faltou coragem para que prefeitos e governadores fizessem o que deveria ser feito. Faltaram políticas eficientes de habitação em nível nacional. Faltou criar ou seguir o plano diretor dos munícipios no que tange a ocupação do solo. De uma forma ou de outra, independente dessa ou daquela ideologia, os governantes brasileiros seguiram uma cartilha de deixar o povo por sua conta e risco para não serem vistos como seu inimigo já que a lógica populista sempre martelou na cabeça do brasileiro que ele tem o direito de fazer as coisas conforme a sua vontade ou necessidade, mesmo que elas o levem à beira do precipício, literalmente.
Falta no Brasil a figura do “governante implicante” que não flerta com o perigo para agradar uma massa de potenciais eleitores. Falta o síndico chato que, com suas ações impopulares, garante a ordem, a segurança e o zelo do bem comum no seu condomínio. Falta a figura do pai preocupado – já que mergulhamos numa década de um paternalismo ainda mais evidente por parte do Estado – que diz NÃO e SIM conforme entende ser necessário para a formação e segurança do filho.
Estamos nadando na lama dessa falsa sensação de que o Estado se preocupa com as nossas vidas e as de nossas famílias. Alienamos, de diversas formas, para o Estado a capacidade que deveríamos ter de cuidar de nós mesmos. Depositamos nossa fé nesse Estado-Pai de que ele iria cuidar de nossas necessidades mais básicas, desde que também nos permitisse sermos eternas crianças, irresponsaveis e mimadas, brincando no playground da morte.
E como toda criança com essas birras e beicinhos, não demora para que tropecemos e, machucados, façamos de nosso choro um protesto tardio e ineficiente.







Pingback: Tweets that mention O Governante Implicante | O Apanágio dos Néscios -- Topsy.com
Meu caro Burrico:
Esses canalhas sabem que o brasileiro é presente e solidário e que jamais abandona o campo antes do jogo terminar. Por isso aproveitam que o povo fará o trabalho que esses sujos deveriam fazer e só aparecem para sobrevoar e colher imagens para as campanhas. Félas Daquelas…