O Galo Bernardino e a Filarmônica de Mauspressagiusk

Terminou o Carnaval em São João do Quentão. A cidade aos poucos vai voltando à normalidade. O desfile das Escolas de Samba do Grupo 4B teve uma apuração tumultuada com briga entre representantes de algumas escolas como a Unidos da Baixa da Égua e a Acadêmicos do Gogó da Ema (essa infelizmente rebaixada para o Grupo 5A no ano que vem). Mas entre mortos e feridos, salvaram-se os toldos….é, os toldos usados para a cobertura das mesas das diretorias durante a apuração. O mesmo destino não tiveram as cadeiras e mesas de plástico utilizadas pelos representantes das escolas que acompanhavam a apuração: serviram de escudo e lança durante a confusão. O Azambuja -  a coruja daqui da fazenda –,  presidente da LIGA, ficou com os olhos mais arregalados que de  japonês que leva um pula-pirata no forevis. Foi um horror! Cena de 3º mundo! Lamentável mesmo. Mas o resultado final foi mantido e a Unidos dos Ruminantes sagrou-se Campeã do Carnaval 2012 com um desfile que, se não empolgou muito o público, foi perfeito tecnicamente. Terremoto – o touro campeão de rodeio – veio de destaque no carro abre-alas e a Leopoldina – a vaca imperatriz – foi uma grande rainha de bateria. A escola mereceu o título, definitivamente.

Pois bem!, mas o Carnaval terminou, afinal. Mas como São João do Quentão é um pólo de cultura e entretenimento nacional, esse final de semana já estava marcada a realização do III Encontro de Jovens Músicos, apresentando obras de compositores como Mozart, Bach e Carlos Gomes. Até aí, tudo bem. O problema foi que um maestro francês, regente de uma das orquestras, encantou-se com a bateria da União dos Galos de Pescoço Pelado – 4ª colocada esse ano -  e mais precisamente com um dos ritmistas mais conhecidos e admirados da região: o Galo Bernardino. O Maestro Schumpeter Trombone, uma coruja de fina estampa,  ficou simplesmente maravilhado com a atuação do Galo Bernardino na bateria da UGPP. Tanto que resolveu inovar e quis porque quis colocar o som do instrumento tocado pelo galo na apresentação da Sinfônica que ele regeria na noite de sábado.

Pra isso, assim que terminou o desfile da União dos Galos de Pescoço Pelado na terça de Carnaval, Schumpeter Trombone correu atrás do Galo Bernardino para convidá-lo para um solo na apresentação da Filarmônica de Mauspressagiusk no evento do encontro de jovens músicos.

- Solo? Vai ter umas minhoquinhas de tira-gosto? Mais eu vou ter de ciscar? Se tiver de ciscar eu não quero – perguntou um Bernardino desconfiado e ofegante enquanto bebia uma cerveja quente num copo de geléia.

- Non monsieur Bernardinô. Solo est une présentation seulement avec vous.

Nessa hora, a Leopoldina que também terminara de desfilar ajudou na tradução:

- Ele quer dizer que você terá uma apresentação especial no meio da filarmônica.

- Quem é essa filha da Mônica? Eu não conheço nenhuma Mônica – respondeu o Bernardino entre um gole e outro da cerveja quente.

- Fi-lar-mô-ni-ca!, explicou a Leopoldina. – É uma orquestra com diversos instrumentos musicais que tocam música clássica. O maestro está convidando você pra fazer uma participação especial com o objetivo misturar  samba com música erudita.

- Oui, oui. – respondeu o maestro que entendia um pouco do português.

- Mas eu não tenho roupa pra me apresentar numa filha-mônica. Vou poder ir com a fantasia da bateria?, perguntou o Bernardino com as penas todas coladas de suor e o pescoço pelado vermelho de alergia pelo atrito da fivela do capacete de sua fantasia.

- Acho que não., respondeu a Leopoldina.

Nisso, o Urubu Calixto que prestava atenção do alto de um poste se meteu na conversa:

- Pode deixar comigo,  Imperatriz. Eu conheço um camarada que pode arrumar um smoking pro garganta vermelha aí.

- Garganta vermelha é a senhora sua mãe, aquela carniceira., empombou-se todo o Bernardino querendo partir pra briga com o Calixto, mas sem conseguir voar até o alto do poste.

Ânimos acalmados, mais um pouco de cerveja pra dentro da goela do galo e ficou marcado de o Calixto ir buscar um smoking com esse tal amigo, enquanto o Bernardino faria três ensaios com a Filarmônica de Mauspressagiusk para dar um espetáculo no dia da apresentação.

Três dias de muitos ensaios e a Leopoldina traduzindo para o Galo Bernardino as orientações do maestro que, empolgado ao extremo, ensaiou até cansar todos os jovens músicos para que a filarmônica fizesse uma paradinha de violoncelos que serviriam exatamente de “deixa” para o Bernardino entrar no palco e começar seu solo de percussão.

Finalmente chegou a noite de sábado. Tudo pronto para a tão esperada apresentação.

- Mas cadê o meu smoking?, perguntou um invocado Bernardino. – Sem smoking eu não entro., decretou ele com o pescoço já vermelho de raiva.

Acontece que o Calixto prometeu o raio da roupa, mas sumiu depois disso sem deixar recado. O último que viu o urubu prolixo disse que ele estava saindo da avenida na manhã da terça-feira na companhia de uma uruboa passista da Bico de Ouro, penúltima escola a desfilar naquele dia.

- Sem smoking eu não vou!, repetiu um Bernardino cada vez mais se sentindo um Pavarotti.

E corre pra lá, corre pra cá. A Leopoldina pendurada no nextel tentando falar com o Calixto, o Muçarela – o rato pobre – procurando pelos bares de São João do Quentão, o Brié -  o rato rico – procurando pelos restaurantes, o maestro Schumpeter Trombone sem entender o que acontecia, acelerava a Leopoldina:

- Qu’est-ce qui se passe, Leopoldiná?

- Peráí um instantin seu Schumpa., respondeu uma Leopoldina totalmente alucinada com o fato de não haver smoking nenhum, de o Bernardino estar vestido com uma camiseta furada de propaganda de candidato a vereador de 1998, uma bermuda de surfista que destacava ainda mais a beleza de suas canelas magras e um boné do MST que ele ciscou no lixo de uma desocupação que aconteceu na Fazenda Vassoura de Bruxa em 2009. 

- Ai meu Jesus Cristin, cadê o Calixto?, disse a Leopoldina, elevando os olhos para os céus numa prece já tida como perdida, mas sendo atendida milagrosamente ao ver o urubu descendo e pousando ao lado do maestro.

- Calixto, onde você se meteu? Todo mundo na cidade está procurando por você meu filho.

- Calma minha Imperatriz. Cheguei, não cheguei?

- E trouxe o smoking do Bernardino?

- É, bem, trouxe, mas foi difícil achar um do tamanho dele. Acho que vai ficar um pouco pequeno.

E puxou de debaixo de uma das asas um smoking bem alinhado, mas minúsculo.

- Jesus!, mas de quem é isso?, perguntou a Leopoldina.

- Pois então – continuou o Calixto – aquele meu camarada que ficou de arrumar o smoking pro Pavarotti aí disse que tem muito tempo que não enterram nenhum galo de smoking e nem mesmo de terno. A coisa ta feia pros galos e galinhas. Quando não terminam na panela, são enterrados com roupas do dia a dia mesmo.

- Mas de que bicho é esse smoking então?

- É de uma codorna, o Dr. Vladimir, que faleceu ontem. Que Deus o tenha! Quando o meu camarada me passou um rádio dizendo que tinha arrumado um smoking, corri pro velório do Dr. Vladimir. Chorei e tudo junto com a família do homem, digo, codorna. E assim que baixaram o caixão e os parentes e coveiros foram embora, nós desenterramos o doutor e tiramos o smoking dele pra trazer pra esse bicho feio aí.

- Oh, meu Senhor!, exclamou uma assustada Leopoldina. – Vocês violaram um túmulo…

- Não esquenta!, depois da apresentação eu volto lá e visto o Dr. Vladimir. Ninguém vai perceber., encerrou o assunto o prático Calixto.

A sorte é que por estar fazendo exercícios preparatórios para as cordas vocais – apesar de ninguém ter dito que ele iria cantar -  o Galo Bernardino não ouviu a história do seu smoking. Já seria bem difícil convencê-lo a entrar numa roupa feita sob medida para uma codorna, não era necessário explicar que a roupa que ele usaria tinha acabado de sair de dentro de um caixão já dentro de uma cova do cemitério municipal.

- Tá apertado isso., reclamava o Bernardino enquanto todo mundo ajudava a enfiar o smoking do Dr. Vladimir no pobre do galo.

- Essa é a última moda em smoking, Bernardino. É istrechi!, ajudou o Je Suis – o pavão estilista da fazenda – para dar credibilidade aquele instrumento de tortura que estava sendo imposto ao galináceo.

Depois de algumas penas da cauda quebradas, uma gravata borboleta que simplesmente dividia o pomo-de-adão do galo ao meio e sapatos pretos bem engraxados, mas que, por serem de uma codorna, deixavam os esporões do Bernardino pra fora, tudo parecia estar pronto.

O regente Schumpeter Trombone veio verificar se estava tudo certo para começar a apresentação. Mais alguns minutos e seria a vez da Filarmônica de Mauspressagiusk apresentar seu Concerto para Violoncelos e Percussão Nº 1 com o Solista Galo Bernardino, conforme o programa do espetáculo.

- Mon Dieu! Qu’est-ce que c’est?, exclamou um Schumpeter absolutamente assustado ao ver o Galo Bernardino em seu tão aguardado smoking.

De fato!, a imagem do Bernardino vestido no smoking da codorna era uma coisa simplesmente assustadora. As penas do peito amassadas davam a impressão de que o bicho era torto de um lado. O pomo-de-adão tentando fugir da gravata. As canelas magras aparecendo entre a calça e as meias. Os esporões saltando pra fora dos sapatinhos. Era uma cena de filme de terror. O bicho ainda estar vivo já parecia um milagre. Se ele conseguisse andar já seria algo digno de aplausos.

- Eu tô legal, gente! Nunca me senti tão bem vestido na vida. Vou arrebentar a boca do balão., disse o Bernardino enquanto a gravata borboleta subia e descia como um elevador desgovernado naquele pescoço vermelho.

E como já não havia mais nada pra ser feito, todos foram para as suas posições deixando o Bernardino na coxia aguardando a deixa da paradinha de violoncelos para a sua entrada triunfante.

Então as cortinas do palco se abriram e o Maestro Schumpeter Trombone iniciou com um primeiro movimento a apresentação de sua sinfonia. As corujinhas regidas por ele demonstravam grande energia e incrível harmonia entre os instrumentos. O segundo movimento era mais lento e ao final dele, na transição para o rondó, haveria a paradinha dos violoncelos (a deixa para o já famoso galo sambista de São João do Quentão).

O momento se aproximava. Sozinho na coxia o Bernardino erguia os ombros e rodava a cabeça para aliviar a tensão. Deu uma última talagada cheia no copo de cerveja (quente, de novo) até que os violoncelos iniciaram o movimento esperado. Os bichos que participaram de toda aquela preparação estavam tensos por saberem que se aproximava o grand finale.

Bernardino colocou o copo já vazio de lado, catou o instrumento de cima da cadeira, passou as penas carinhosamente sobre o couro como se acordasse o amigo para entrar em cena com ele.

E eis que os violoncelos encerram suas participações com a tão esperada paradinha.

E eis que surge o Galo Bernardino mancando apressado e girando seu pandeiro na ponta da asa direita.

O Maestro, sem entender por que o Bernardino não está tocando o pandeiro conforme o que foi ensaiado durante aqueles três últimos dias, aponta a batuta pra ele e faz sinal para que ele toque o pandeiro. Mas o Bernardino sem entender o significado daqueles sinais começa a jogar o pandeiro de uma asa para outra – sempre rodando – e a sambar com a língua pra fora atrás de uma corujinha que tocava pratos.

Percebendo que não tinha mais como consertar aquele desconcerto – a filarmônica já estava há uns 2 minutos em completo silêncio com o Bernardino fazendo todo tipo de palhaçada com o pandeiro – o maestro retomou a regência com todos os outros instrumentos que acompanhariam o pandeiro do maluco do Bernardino que nessa altura da sinfonia já estava sambando em cima do piano (sempre rodando e jogando o pandeiro pro ar)

Encerrada a apresentação; o público presente, sem entender direito o que tinha acabado de presenciar,  aplaudiu como de costume. E, do alto da cauda do piano, o Galo Bernardino gritava feliz da vida pra Leopoldina, Calixto, Je Suis e cia:

- EU NÃO FALEI QUE IA ARREBENTAR?! MANDEI BEM, NÃO MANDEI?!

 

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2 respostas para O Galo Bernardino e a Filarmônica de Mauspressagiusk

  1. Ajuricaba disse:

    Nem preciso dizer que está espetacular. Mais uma crônica de primeiríssima linha

  2. mike osoviskh disse:

    Rsrsrsrs, ótima crônica meu caro filonescio.

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