A Votação

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– Pela ordem, Senhor Presidente! Pela ordem! – bradou o Azambuja – a coruja – na tentativa de apaziguar os ânimos dos bichos na reunião da fazenda.

– Já estamos aqui há mais de 8 horas e nem sinal de um encaminhamento para a votação. – disse o Galileu – o peru ateu comendo um sanduíche velho que encontrou no fundo da mochila.

– O procedimento já foi debatido à exaustão e não há mais o que ser dito, falado, colocado e tudo o mais é tentativa de tergiversar quanto à questão principal de nossa pauta. – disse o Muçarela – o rato pobre que presidia a sessão naquela tarde.

E continuou:

– Os bichos serão chamados por ordem de setor que ocupam na fazenda, começando do Norte para o Sul e vice-versa. Começando, portanto, dos animais que vivem junto à porteira da fazenda, passando depois para os que estão no pomar, depois novamente ao Norte com os que residem nas proximidades do açude da entrada principal, retornando ao Sul com a horta e depois…

– Senhor presidente, questão de ordem. – tomou o microfone a Jandira Saracura, interrompendo a fala do Muçarela.

– Só um minuto, Senhora Jandira. Deixe-me terminar de detalhar como será a ordem da votação, por favor.

– Minha questão de ordem é justamente sobre essa ordem. Não concordamos que os bichos que vivem perto do açude devam votar antes dos que estão no celeiro, uma vez que a latitude do celeiro vem antes da do açude. – disse a Jandira com um GPS preso à canela fina.

– A ordem também deveria ser de quem vive mais rente ao solo pra cima. –  emendou o Min-Ho-Oko, a minhoca maoísta.

– Não! Assim não! Já estão esculhambando a parada. – reclamou o Calixto, o urubu prolixo e pró-lixo com o apoio do Batista, o pardal capitalista.

– É justo! É Justo! Temos dificuldades de acesso ao microfone do plenário. – falou dessa vez um tatu-bola com problemas de bico-de-papagaio que poderia votar primeiro em função do atestado médico, mas quis colocar mais lenha na fogueira.

– Ordem! Ordem! PLÉM PLÉM PLÉM… PLÉM PLÉM PLÉM. – tentava a todo custo com o auxílio da campainha, o Muçarela, que presidia a sessão já totalmente fora de controle.

Desse momento em diante já havia conflito entre aves e porcos sobre quem votaria primeiro. Duas cabras discutiam com dois marrecos com um mapa da fazenda aberto medindo quem estava mais próximo da próxima latitude com direito a voto. Os marrecos argumentavam que também frequentam o lago e dessa forma deveriam votar primeiro. Os peixes reclamavam porque a altitude deveria ser medida a partir de onde se encontravam e a situação parecia sem solução, pois não havia microfones à prova d’água.

Sem outra alternativa, o Muçarela teve de solicitar a intervenção da Polícia Legislativa. Cinco capivaras armadas com bastões táticos e spray de gengibre saíram distribuindo porrada em todo mundo e rapidamente a ordem foi restabelecida.

O Muçarela decidiu fazer uma votação rápida para saber se todos aceitavam que a ordem de votação fosse simplesmente por ordem alfabética para simplificar todo aquele processo de latitude, longitude, cartografia, astrologia, enfim! Para surpresa da mesa, a maioria dos votos foi favorável a que o rito da votação sobre a matéria em questão fosse por ordem alfabética.

Ânimos mais apaziguados, Tião Paçoca, um pombo vesgo que era o primeiro secretário passa ao segundo secretário, Olímpio Wagner, um sabiá laranjeira que se apresenta no Karaokê de Santa Dorotéia, a lista com os nomes dos bichos com direito a voto já em ordem alfabética.

Olímpio Wagner, com sua voz melodiosa, chama:

– Dr. Aarão Amado, por favor pode se dirigir ao microfone.

O Dr. Aarão Amado era uma lhama recém-chegada do Peru que foi bater lá na fazenda por causa do programa Mais Médicos.

O velho doutor foi se chegando com dificuldades até o púlpito pedindo licença a dezenas de outros bichos que se amontoavam na passagem,  posicionou-se diante do microfone, ajustou a altura do equipamento, deu dois toques com o casco direito para testar o sistema de som da casa, tossiu algumas vezes num lenço finamente bordado pela esposa e começou seu preâmbulo:

– Povo guerreiro! Povo São João Esquentadense! Pela minha família! Por Deus! Por minha tia Esmeralda que me criou numa fazenda entre Ayacucho e Cusco…

Nesse exato momento, ao pronunciar suas origens peruanas, o Dr. Aarão Amado desferiu uma chuva de cuspe em pelo menos uns oito parlamentares que se encontravam à frente do púlpito. A porrada começou a rolar e não havia campainha nem Polícia Legislativa que conseguisse separar a bicharada. Depois de muito tempo, muitas penas e pelos voando pelo salão é que a ordem foi novamente restabelecida.

Metade dos bichos foi parar na Delegacia pra, cada um ao seu modo, explicar o que aconteceu ao Delegado Jorjão. A outra metade ficou a madrugada toda no hospital à espera de um leito vago uma vez que o problema da saúde do município era o tema da bendita votação.

 

 

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NÃO VAI TER GOLFE!

Tarde do último sábado e alguns manifestantes – cinco – concentravam-se em frente à  porteira da fazenda Milho Milhó do cumpadre Apolinário Mendonça. Entre eles a Zuleica, uma saíra azul (está mais pra vermelha), conhecida agitadora da região. Acompanhavam o protesto um macaco-prego, um porco, um furão e o Dirceu, o morcego comunista aqui da fazenda.

– NÃO PASSARÃO! NÃO PASSARÃO! – bradavam os manifestantes impedindo a entrada da equipe de marmotas contratada para fazer a reforma do campo de golfe da fazenda.

O neto de Nhô Apolinário resolveu, para agradar o avô, fazer a reforma do antigo campo de golfe da fazenda que era muito badalado lá pelos idos da década de 50. Depois vieram momentos dificéis na fazenda e o campo ficou abondanado, depois foi usado para plantio de algumas culturas que não vingaram por não se adaptarem ao solo. Por fim, foi abondanada novamente lá por meados da década de 90. Mas agora, o neto quer dar essa alegria pro avô e pretende fazer reviver o gramado verdinho, as bandeirinhas, os carrinhos… tudo conforme se via há quase 70 anos.

– NÃO PASSARÃO! NÃO PASSARÃO! – insistiam no brado os manifestantes obstruindo a porteira.

– Mas senhora, fomos contratados para a obra do campo de golfe. – disse um dos engenheiros marmotas ajeitando os óculos e apresentando o papel com a autorização para a Zuleica.

– NÃO ME INTERESSA! – disse a Zuleica com ódio, tomando o papel das mãos do engenheiro marmota e rasgando-o para o delírio dos outros manifestantes.

– NÃO VAI TER GOLFE! NÃO VAI TER GOLFE! – gritavam e pulavam (exceto uma cobra que apareceu e se juntou ao grupo só pela baderna) excitados.

– Esse campo de golfe deverá seeeerr desapropriado e fazeeer paaaarte de um novo acampamento campesino para atendeeeer os membros de grupos sociais da região. –  disse o Dirceu, o morcego comumista.

A gritaria começou a chamar a atenção de outros bichos da fazenda e dos que passavam pela região. Em pouco tempo havia algumas dezenas de bichos na frente da porteira tentando entender o que acontecia.

– NÃO VAI TER GOLFE! NÃO VAI TER GOLFE! – continuavam aos berros a Zuleica, o macaco-prego, o porco, o furão, o Dirceu, a cobra e agora mais 30 patos que chegaram num ônibus fretado com um vale-refeição debaixo das asas e a  promessa de ganharem um lago na fazenda com direito a pedalinho e tudo.

– NÃO VAI TER GOLFE!

– NÃO VEI TER GOLFE!

– NÃO VAI TER GOLFE!

(agora num tom mais fanho por causa da quantidade de patos na frente da porteira)

Julião Bacamarte, o galo que faz a segurança da fazenda, largou seu posto pra lá e foi ligar pra Polícia que apareceu com duas viaturas e e dez cães pastores que ficaram a uma certa distancia observando o desenrolar do protesto.

– FASCISTAS! FASCISTAS! – gritavam os manifestantes ao verem a chegada dos policiais

Je suis, o pavão daqui da fazenda, resolveu conversar com os manifestantes argumentando que a reforma do campo de golfe traria mais turistas, geraria empregos para a população que mora nas redondezas da fazenda, mas foi rapidamente interrompido pela Zuleica que, enlouquecida, dizia que os bichos da região não precisavam de empregos para serem escravos de oligarcas de cartola e fraque que fumam charutos enquanto tatus se empenham em carregar pesadas bolsas de tacos de golfe mesmo sem terem altura para isso.

– NÃO VAI TER GOLFE! NÃO VAI TER GOLFE!

Como a situação não se resolvia, o Delegado Jorjão – um tatu – chegou junto dos manifestantes e disse que eles não poderiam impedir a entrada dos engenheiros e funcionários da empreiteira por se tratar de uma propriedade privada.

– Entraremos com um HC preventivo. – disse a Zuleica.

– Pra quê? – perguntou o delegado.

– Você vai mandar seus cães adestrados nos prenderem? Pode me algemar. – disse a Zuleica esticando as asas em direção ao Delegado Jorjão.

– Claro que não, minha filha! Isso não será necessário. – disse o Delegado Jorjão, acenando com a cabeça para o Anibal – o cão comandante do Choque Canino.

Em instantes era uma nuvem de spray de pimenta que ninguém conseguia enxergar mais nada. Foi porrada de militante em militante, pena de pato voando pra todo lado e até os engenheiros marmotas apanharam no meio da confusão.

Pra completar, o neto de Nhô Apolinário Mendonça desistiu da ideia do campo de golfe e resolveu criar no local um clube de tiro ao pato. Mas agora a Zuleica e o Dirceu não apareceram para reclamar. E os patos mudaram de partido.

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Rodyneison: O Urubu Suspeito

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Quando o Delegado Jorjão chegou na clareira aberta na mata, a confusão já estava formada. De um lado, os cães policiais que fizeram a captura do suspeito de furtar a Dona Hermengarda – uma capivara que roía as unhas de nervosismo. Do outro, a turma que creditava  à prisão do Rodyneison – o urubu suspeito – mais uma demonstração clara (ops!!) do racismo velado que ainda existe nas fazendas do interior desse Brasilzão. 

– Mas ele será levado para delegacia apenas para averiguação. – disse o Delegado Jorjão ajeitando os óculos fundo-de-garrafa na tentativa de identificar alguém na multidão que fosse responsável pela manifestação.

– Isso é um absurdo, Doutor. Estão prendendo o Rodyneison só porque ele é negro.  –  bradou uma saíra-sete-cores, conhecida ativista de outras manifestações progressistas.

– Senhorita, o cidadão em questão só foi detido porque a Dona Hermengarda fez, além do retrato-falado, o reconhecimento no DP de Santa Dorotéia onde, além desse suspeito de lhe furtar a bolsa, estavam também um periquito australiano e um canário belga. – esclareceu o Delegado Jorjão.

– Mas, ora, se por acaso teriam coragem de prender como suspeitos os dois estrangeiros.  – resmungou um tatu-bola abraçado a um boneco de pelúcia do Fuleco.

Rodyneison seguia cantarolando uma canção do Bob Marley alheio à confusão que se formara em torno de sua pessoa. Fato é que dificilmente a vítima poderia confundir um urubu com cabelo rastafári com dois coxinhas importados que de tão certinhos davam ainda mais raiva nos manifestantes que pediam a liberação do suposto assaltante que só sabia repetir com entusiasmo:  “Is this love, is this love, is this love Is this love that I’m feelling’?”.

– RACISTAS! RACISTAS! RACISTAS!começou a puxar o coro a saíra-sete-cores do início da história. No que foi seguida por mais um grupo que incluía um anu- preto, três corvos, oito melros e um gato preto da Fazenda Poços de Caldas que apareceu ali só pra ver se faturava uma refeição “na faixa”.

O Delegado Jorjão, temendo pela integridade da vítima do assalto no meio daquele tumulto, resolveu tentar dispersar a multidão autorizando que seus cães de guarda fizessem uso de bombas de efeito moral e de gás lacrimogênio. A cachorrada era só alegria jogando bomba na bicharada que, de longe, agora gritava: 

– FASCISTAS! FASCISTAS! FASCISTAS!, enquanto um tamanduá com uma bandeira vermelha gritava sozinho, mas a plenos pulmões: – GOLPISTAS! GOLPISTAS! GOLPISTAS!  

A essa altura do campeonato, a Dona Hermengarda já estava chamando urubu de “meu louro”, dizendo que achava que o suspeito era mais baixo, mais magro, mais feio, mamífero ao invés de ave. – Estava escuro! Não vi direito! – disse ela, chorando. Enfim, a pressão foi tanta que a senhora acabou desmaiando e foi um corre-corre pra trazer água com açúcar pra reanimar a pobre da capivara.

O Delegado Jorjão, cumprindo com sua função, levou foi todo mundo pra delegacia e, depois que a Dona Hermengarda acordou, por falta de certeza por parte da vítima e porque o Rodyneison tinha um álibi para o horário da ocorrência (o Calixto – o urubu prolixo e pró-lixo da fazenda – confirmou estar com ele num reggae no bar maranhense de Simbora Daqui) –  foi obrigado a liberar o agora ex-suposto meliante que, levado nos braços da multidão que o aguardava do lado de fora, entoou mais uma do Bob:   

Won’t you help to sing

Another song of freedom?

‘Cause all I ever have

Redemption songs

Redemption songs

 

Já à noite, no bar do Firmino, bebiam e comemoravam juntos o Rodyneison, o Calixto e o Galileu – o peru ateu – , quando entrou correndo, ou melhor, voando, o Dirceu – o morcego comunista – com uma bolsa grená, brega, com detalhes dourados um tanto desgastados e  cheia de vegetação aquática grudada na alça. Os três amigos olharam para aquilo e como já estavam há mais de cinco horas bebendo, caíram numa estrondosa gargalhada, sem se darem conta do que estavam presenciando.

– E aí, Dirceu, tá rodando bolsinha na lagoa pra completar a renda? – perguntou o Calixto, rolando de rir.

– Claro que não! É da minha mãe que esqueceu em casa quando foi pro culto. – respondeu o morcego negro como uma noite sem lua, já pegando o rumo da primeira janela aberta antes que viessem mais perguntas dos três bêbados.

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Caramuru

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Todos conhecem a história de Diogo Álvares Correia – o Caramuru –,  mas o que poucos sabem realmente é de onde veio a fama do português. Diogo ficou conhecido por um suposto tiro de arma de fogo que assustou os índios e que lhe rendeu o apelido de “filho do trovão”, mas que não tem nenhuma relação com o apelido Caramuru, que em tupi significa “lampreia”, uma espécie de peixe,  uma vez que Diogo teria sido encontrado pelos índios na praia em meio a algas e pedras. Mas o que a história não conta, eu reparo. Sim!, o que passo a narrar agora vem sendo contado na minha família desde aqueles tempos. O fato é que Diogo era sujeito mulherengo e, como acontece até hoje, sendo turista europeu,  encantou-se com a cor e a beleza da mulher brasileira que, mesmo antes de o país se chamar Brasil, já se vestia com pouca roupa. Mas o Diogo, guloso, caiu na besteira de se envolver com as duas filhas do chefe Taparica que; ao saber disso,  já cansado de trocar espelhinhos portugueses por ouro de tolo Tupinambá, resolveu dar uma lição em nosso amigo Caramuru.

Conta a história que certo dia Diogo estava na farra com as duas irmãs quando um grupo de guerreiros tentou surpreender o sujeito se divertindo na rede. Alertado pelas moças, Caramuru montou num burrico que estava amarrado do lado da cabana onde o moço se fartava das nossas frutas tropicais, interrompendo a refeição do animal que comia farinha de mandioca com pimentão recheado. Diogo pegou o rumo da praia com os índios correndo no seu encalço, mas o enfadado do burro, nada acostumado àquela correria toda depois do almoço, começou a perder velocidade e, cansado, acabou sendo alcançado junto a um paredão de pedra onde havia uma fogueira, ainda em brasas, deixada por alguma outra tribo vizinha. Diogo, pressionado pelos índios que lhe apontavam lanças e flechas, colocou o burro na sua frente, ficando com a encosta do morro às suas costas.  O chefe Taparica falava que Diogo havia traído a sua confiança e que só queria saber de ficar de comilança com as suas filhas. Foi então que o burro, bicho pouco entendedor das safadezas dos homens, mas conhecedor das urgências de seus próprios vícios, começou a sentir o resultado daquela corrida alucinada nas tripas que se reviravam com o pimentão e a farinha de mandioca. Fosse só por isso, talvez passasse, mas os índios não paravam de avançar com setas em punho na direção de seu focinho, enquanto o Caramuru tentava se esconder atrás dele. E com aquela pressão toda (vindo de dentro e de fora) o pobre do burro não aguentou e largou um pum digno de um imperador empanzinado que, além de ter o seu som amplificado como um trovão no paredão de pedra, pegou rastro por cima das brasas da fogueira levantando uma coluna de fogo que pôde ser vista lá da aldeia. Nessa hora e com espanto, os índios Tupinambás gritaram em uníssono: PONGA!, que em tupi-guarani quer dizer “som retumbante”, batizando assim o burro flatulento.

Depois disso, os guerreiros até esqueceram do sacana do Diogo para se dedicarem a cobrir de mimos o Ponga na intenção de usá-lo como arma de combate (o primeiro tanque de guerra genuinamente brasileiro). Já o Caramuru, para não ficar por baixo nem com fama de covarde, mas com medo das ameaças do chefe Taparica, tratou logo de casar com Paraguaçu e de levá-la para a Europa onde cuidou rapidamente de inventar a história do tiro como conhecemos até hoje.

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O Bem-te-vi Otimista

Calor infernal, nenhuma nuvem no céu azul e um bendito bem-te-vi vem pousar ali, pertinho, na antena parabólica do meu vizinho. E fica lá, olhando o céu com um ar professoral, doutor em meteorologia, cantando notas com vigor: bem-te-vi, te-vi, te-vi. O bicho parece não se cansar. E olha o céu de novo como para confirmar se o que vê pode ser levado para a redação. Eu olho o mesmo céu pela janela segurando uma revista velha que serve de abanador e ele continua lá na antena a gritar os seus te-vis pra lá e pra cá, confortavelmente instalado no telhado do meu vizinho. Olho pra ele com um ar desanimado, ele me devolve o olhar, olho o céu e novamente para ele que repete o meu gesto e voltando a fitar o céu azul, sacode as asas, eriça as penas e estica a perna esquerda como se espreguiçando para, de novo, soltar a plenos pulmões um grito, “BEM-TE-VI”,  daqueles de quem só se manifesta na convicção de que vem chuva pesada no final da tarde.

Volto ao meu teclado, recolho-me a minha sabedoria de asno que entende só de sulcos na terra e nada de ventos ou água que venha do céu. Mas as saíras também cantam numa fofoca ligeira. E agora um grupo de periquitos maracanã vêm fazer sua algazarra barulhenta, que mais parece deboche, junto a uma árvore próxima ao telhado onde da antena parabólica meu colega de peito amarelo manda notícias do tempo para o mundo.

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Abigail e Mustafá

Abigail é uma moça que mora no casarão no número 10 da Rua Aristides Bueno, uma rua lateral à praça principal (e única) do centro de São João do Quentão.  Com ela moram a mãe, Dona Regina Célia, e um gato persa de nome Mustafá. Abigail é moça nova, magra, alta, dedos longos como os de um poeta, com um cabelo negro e liso que teima em se soltar dos penteados que faz para tentar prendê-lo. Passa os dias na tarefa de cuidar da mãe, do gato e de seus bordados trabalhados junto à janela da sala. Pouco sai de casa, não tem amigos e vive a enterrar a juventude dos melhores anos da vida nas tramas dos fios durante o dia e nas letras dos livros antes de dormir. Carinho, conhece apenas os do Mustafá que se embola entre os seus pés ou pula em suas pernas quando ela está no sofá, pois, acreditem!, acha-se feia por causa do queixo retraído que em outros tempos presenteou um Noel Rosa que, ainda assim, amou e foi amado por tantas mulheres. Mas Abigail estava longe de ter a vida de um Noel na boemia de uma Vila Isabel. Seus dias eram daquela simplicidade e repetição no trato com a mãe, o bordado e o gato.

Mustafá –  o gato  –  é, ao contrário de Abigail, lindo e sabe disso. Dono de um pêlo cinza de impecável brilho, macio como o roçar das mãos em nuvens, e de olhos azuis cintilantes como estrelas que acabaram de nascer. Tem o carinho de Abigail, mas não suporta a indiferença de Dona Regina Célia que brada aos quatro cantos que detesta gatos. Fosse apenas por ela, talvez suportasse viver naquela casa, mas Mustafá também sente algo de torto nos carinhos que Abigail lhe faz nos pêlos quando ele se deita sobre as pernas dela no sofá. Por mais que todos saibam que gatos só pensam em si mesmos, em seu conforto e bem-estar, Mustafá sente que as mãos delicadas de Abigail desenham páginas de solidão em seus pêlos como fazem com as linhas dos bordados: a cabeça da moça nunca está ali, no trabalho ou no carinho que lhe faz. E isso é, para Mustafá, um amor vazio. Gatos entendem que na maioria das vezes os carinhos que recebem dos humanos são por saudades de tempos já vividos ou pela falta de tê-los vivido. E isso para o Mustafá, sabidamente consciente de que era lindo e desejado, é um despropósito. Sua vaidade não pode permitir que viva a sua vida desse jeito: sendo desprezado por Dona Regina Célia e acariciado por Abigail que deve pensar em outros dorsos e pêlos enquanto faz aquilo.

Foi aí que o Mustafá teve um plano, desses que só um gato que mora num casarão pode ter, pois os que moram nas ruas ou cortiços planejam coisas mais imediatas e uteis como, por exemplo, capturar um rato para o jantar. Todas as tardes, praticamente debaixo da janela da sala do casarão número 10, uma van para e dela descem várias crianças que moram em São João do Quentão, mas que estudam em Santa Dorotéia. Quem traz as crianças no fim das tardes é um pedreiro chamado Ribamar. O Mustafá sabe, pois sempre escuta as crianças gritando ao mesmo tempo “- Tchau, Tio Ribamar!”  naquele um minuto que parece durar uma hora na algazarra dos pequenos. O “Tio Ribamar” é um sujeito corpulento, mas não gordo, com algumas entradas nos cabelos e na barba que sempre traz mal aparada. Vermelho do calor, cinza do cimento, suando horrores, com as mangas das camisa sempre enroladas até a altura dos cotovelos e um relógio de aço que reflete o sol da tarde e que, no fim, é o que mais chama a atenção do Mustafá: aquela coleira que o Ribamar leva no braço e que brilha como o sol das tardes de São João do Quentão.

Mustafá pensou que poderia conseguir muita coisa do Ribamar. Primeiro, ter acesso ao relógio e entender como ele guarda aquela porção de Sol dentro dele. Segundo, seria por meio de Ribamar que Mustafá sairia do velho casarão, escondido do mundo, para morar e brincar com o seu pedaço de Sol. Bastava que Ribamar se interessasse por Abigail, que os dois se casassem e que fossem morar em uma nova casa construída pelo próprio Ribamar para a sua nova família. Estava tudo muito claro na cabeça do Mustafá, mas para que essas coisas acontecessem, era necessário um plano que o gato não tardou em desenhar em mais uma noite em que Abigail se dedicou a traçar corações com setas em seu pêlo macio.

Na manhã seguinte, a mesma rotina: Dona Regina Célia reclamando do gato, Abigail cuidando de seus bordados, Mustafá brincando com os carretéis das linhas e tendo, vez ou outra, um coração desenhado nas costas pela moça. Até que se ouve a van estacionando e as crianças naquela gritaria de “- Tchau, Tio Ribamar!” pra cá e pra lá. Mustafá, que cochilava nessa hora, deu um salto da almofada e foi bater no beiral da janela para não deixar o Ribamar ir embora naquela bendita van. Abigail se assustou com a carreira inesperada do bicho e, temendo que tivesse caído na rua, correu à sacada para ver como estava o bichano.  Ao afastar a cortininha leve de renda que ela mesma fez, deu de cara com o Mustafá se roçando no braço do relógio do Ribamar que, a principio, nem notou a presença da jovem na janela.

– Oi, moça! Não lhe vi aí, desculpe! –  disse o Ribamar para uma Abigail que, voltando meio passo, colocou-se novamente sob o véu da cortina de renda.

– Pensei que o meu gato tivesse caído da sacada. – disse Abigail, observando como Mustafá e Ribamar se deram bem.

O gato praticamente se deitara esparramado no braço do pedreiro e estava lá a olhar as horas no relógio que trazia um tanto do Sol que ele tanto amava. Com a outra mão, Ribamar arranhava as costas do felino até a nuca, enquanto Abigail observava aquele carinho mais vigoroso sem se dar conta de que Ribamar continuava falando com ela como quem puxa um assunto sobre o nada. Ele percebendo que a moça não lhe dava atenção, enrolou o gato num abraço e o devolveu por cima da sacada para uma Abigail que agora fitava discretamente os músculos grandes comprimidos nas mangas enroladas da camisa colada de suor e pó de cimento.

Vendo o interesse nos olhos e desenhos que a dona lhe fez nas costas naquela noite, Mustafá percebeu que o plano dera resultado. Na tarde do dia seguinte, tão logo o primeiro moleque barulhento gritou “- Tchau, Tio Ribamar!”, lá foi o Mustafá para  a sacada da janela conversar com o seu novo amigo. Abigail, dessa vez, não correu e ficou ouvindo o Ribamar falando pro gato “- Que bichano lindo!” enquanto o Mustafá se derretia de carinhos, miados baixos e admiração pelo relógio do homem. Abigail se aproximou novamente da cortina e viu Ribamar e Mustafá naqueles carinhos todos que, estranhou,  ela nunca viu o gato dedicar a ninguém. Tomou coragem e um passo adiante apareceu na janela.

– Boa tarde! – disse Abigail ajeitando uma ponta do cabelo que lhe pendia pela lateral do rosto, terminando por repousar a mão no queixo que tanto a incomodava para disfarçar o ar de poeta da Vila.

– Oi, boa tarde, moça! Desculpe estar aqui brincando com o seu gato, mas parece que ele também gostou de mim. – respondeu Ribamar, enquanto roçava a barriga do gato com as mãos pesadas que faziam a alegria de Mustafá e despertavam desejos secretos numa Abigail que olhava com uma  certa ponta de inveja o espreguiçar de seu gato no braço forte do homem.

– Admira-me essa amizade dele pelo senhor. – disse Abigail. – Esse danado não vai com ninguém além de mim, nem mesmo com minha mãe. – completou a moça como se por acaso Dona Regina Célia fizesse alguma questão de fazer carinhos em gatos.

– Não lhe incomoda, então? – perguntou ele.

– De forma alguma. E nesse horário é até bom para que eu também estique as pernas, deixe um pouco do bordado e venha pegar um Sol de fim de tarde na janela.  – respondeu ela sem tirar os olhos das mãos de Ribamar esfregando o gato, dando a entender que faria aquilo todos os dias a partir de então.

E assim ela fez nos dias que se seguiram. Toda vez que a van parava e a primeira criança gritava “- Tchau, Tio Ribamar”, corriam Mustafá e Abigail para a janela. Depois de alguns dias, Abigail já não esperava a van chegar; ficava esperando na janela com Mustafá nos braços. E os dois ficavam lá conversando durante 15 minutos, depois meia hora, uma hora, até que o Sol se apagasse em seu relógio e Mustafá perdesse o interesse pelo objeto. Abigail mostrou os trabalhos que fazia com seus bordados, comentou os livros que lia, emprestou alguns para Ribamar que nem os havia pedido empresado. Ele falou do trabalho na construção civil, das casas populares que construía em outros municípios e de como aproveitava a van para ajudar com o transporte das crianças para a escola já que, deixassem por conta das famílias sem recursos e dos governos sem interesse, a evasão escolar seria ainda maior. Abigail se encantava ainda mais com Ribamar, com o estilo rústico, másculo, com os músculos pulsando sob a camisa e até o pó de cimento que a incomodava no início, agora parecia pó de ouro pela generosidade do pedreiro que também se fazia de motorista só pra ver as crianças na escola.

Abigail ia se deitar à noite e, na cama, desenhava nas costas de Mustafá corações com seu nome e o de Ribamar. O gato sentia que os carinhos que nunca foram pra ele, ao menos agora tinham um nome, um dono. E ele, afinal,  gostava do relógio de Ribamar que tinha o poder de guardar o Sol. Durante quase um mês a rotina de Abigail, Mustafá e Ribamar se repetiu na sacada daquela janela. Dona Regina Célia fazia gosto de que a moça arrumasse um marido e saísse de casa levando o bendito gato. Chegou a convidar Ribamar para um jantar, mas o homem disse não poder ficar até tarde, pois ainda tinha de passar na casa da mãe que andava meio adoentada.  E tudo que Ribamar dizia ou fazia era motivo para aumentarem a admiração e a paixão por parte da Abigail.

Chegou um dia que deu cinco horas da tarde e só Abigail foi pra janela ver a van chegar buzinando, rir da algazarra das crianças se despedindo do “Tio Ribamar” e ficar conversando com ele até o Sol se pôr por detrás da torre da Igreja da Matriz. Mustafá já dava como cumprida a missão de aproximar os dois e agora ficava às voltas com seus carretéis, fazendo planos para a vida nova na casa nova com Abigail e Ribamar que sempre perguntava por ele quando se encostava na janela para conversar com a moça que agora já não escondia mais o queixo com as mãos e até arriscava a soltar os cabelos finos e negros assim que corria para a janela. Já se achava mais bela, mais interessante, mais interessada no mundo além dos caminhos dos fios que bordava, além da cortina e da janela da própria casa de onde não saía pra quase nada.

E no dia seguinte a mesma rotina se repetia: Abigail na janela por volta já das três da tarde, Mustafá brincando ou dormindo no meio das linhas e das almofadas e Ribamar chegando com a van repleta de gargalhadas e sempre perguntando pelo gato ao se aproximar da janela. Até que um dia a van não apareceu as cinco horas. Abigail ficou preocupada. Teria acontecido algum acidente na estrada? E as crianças?, meu Deus! E Ribamar? Como estaria? Seu amor perdido num acidente horrível na estrada entre São João do Quentão e Santa Dorotéia? Não queria imaginar, mas ao mesmo tempo eram as únicas cenas que conseguia ver até de olhos fechados. Correu para buscar Mustafá que dormia entre as almofadas do sofá, voltou à janela e lhe fazia carinhos que escreviam linhas de preocupação no pêlo magnífico do gato persa que, não poderia ser diferente, leu e também ficou tenso com a possibilidade de ter acontecido alguma coisa com Ribamar e seu relógio.

Passava das sete quando Abigail viu a van de Ribamar encostando debaixo da janela. “- Graças a Deus!” – disse ela. Ele se apressou em tranquilizá-la. Não fora trabalhar naquele dia. Ela reparou que ele estava diferente, todo arrumado, cabelo molhado e penteado, barba feita, blusa nova sem sinal de cimento, calça alinhada e passada com vinco, sapatos brilhando mais do que as pedras da rua. Ele disse que tinha algo muito sério a lhe propor. Ela sentindo um arrepio na alma, na nuca e uma fraqueza nas pernas, agarrou-se firme com o Mustafá nos braços. Ele lhe pediria em casamento. Onde estava Dona Regina Célia? Teria de chamá-la na cozinha, mas não conseguia mover um só musculo de tanto que ficara debruçada naquela janela a tarde inteira.

Ribamar começou dando voltas para falar o que realmente queria. Falou dos dias vividos entre as muitas obras que só lhe davam alegria porque sabia que as casas seriam o único bem de muita gente de bem que não tinha nem onde cair morta. Falou da alegria de transportar as crianças da escola para casa todos os dias e de como isso foi bom porque ao parar ali, em frente à casa número 10 da Rua Aristides Bueno, pode conhecer a Abigail. A moça quase não se controlava de tanta alegria e desenhava delicadas flores nos pêlos do Mustafá que também se regozijava com aquilo, afinal, a ideia de aproximar os dois havia sido dele.

Ribamar continuava falando, mas parecia que nem Abigail nem Mustafá se davam conta do que ele dizia.  Ela fazendo planos para o casório e ele para a casa nova e os brinquedos que teria. Até que Ribamar se virou para Abigail e perguntou:

– Abigail, nem sei se tenho o direito de fazer isso, mas posso lhe pedir uma coisa?

– Claro, Ribamar! – respondeu ela com um sorriso imenso já com o pensamento no vestido de noiva.

– Você me venderia o Mustafá? – perguntou ele para espanto da moça e do gato. – Minha mãe está muito doente, acabei de vir do hospital e ela diz sentir falta de meu pai já falecido, de dois irmãos meus que sumiram no mundo e de um gato persa, muito parecido com o Mustafá, que lhe consolava nos momentos em que a solidão descia pesada com o chegar da madrugada.

– Claro, Ribamar! – respondeu Abigail com uma tristeza estampada no rosto e segurando firme o Mustafá que nessa hora pensou em correr para o fundo da casa.

– Eu lhe dou o gato, não é preciso me pagar por ele. Em nome de nossa “amizade” e com vistas à melhora de sua mãe. – disse ela, e dizendo isso, passou o Mustafá aos braços do Ribamar e trancou a janela.

Ribamar ainda continuou por cerca de uma semana parando a van debaixo da janela, agora sempre trancada, do casarão no número 10 da Rua Aristides Bueno. Depois disso mudou o ponto para outra rua junto à praça, pois acreditava que havia feito alguma coisa que incomodara muito sua amiga Abigail. Ela, por sua vez, foi fazer seus bordados no quarto dos fundos, sem janela para a rua, substituindo os carinhos que fazia no gato por lindas tramas que pareciam obras de arte de tanta beleza e tristeza juntas. Dona Regina Célia nem se preocupou em saber o que havia acontecido entre a filha e o pedreiro. Bom mesmo é que o gato Mustafá, dado ou vendido, não morava mais com elas, e sim num quarto apertado de um cortiço em Doutor Altino – um bairro da periferia – sem ver a luz do dia junto com a Dona Geralda, mãe do Ribamar, que passa praticamente todas as noites desenhando saudades infinitas do marido e dos filhos nas costas do lindo gato persa que um dia chegou a pensar que poderia ser o dono do Sol.

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O rato da cidade e o do campo

Um rato que morava na cidade, foi passear no campo. Recebeu-o e agasalhou-o um amigo que o levou para os seus palácios subterrâneos, e deu-lhe um banquete de ervas e raízes. Maldizendo em presença de tais iguarias a louca lembrança do seu rústico passeio, o rato da cidade, obrigado a jejuar, disse por fim: “Amigo, tenho dó de você; como  pode ficar resignado com semelhantes coisas? venha comigo para a cidade e veja o que é fartura, o que é viver…”.  O outro aceitou. À noitinha estavam ambos em uma bela e rica residência, em bem provida despensa: queijos, lombos, o perfumado toucinho, tudo os incitava; desforrando-se de sua longa dieta, o rato do campo regalava-se. Subitamente range a porta, entra o dono e: com ele, dois gatos. O rato da casa achou logo o seu buraco; o hóspede, sobressaltado, pulando de prateleira em prateleira, mal escapou com a vida, e despedindo-se do amigo, disse: “Adeus, camarada, fique com as suas farturas; mais vale magro e faminto no mato, do que gordo na boca do gato”.

MORALIDADE: Sem sossego de espírito de que valem os outros bens?

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