Os cães dos desafortunados

Gosto de cães! São animais que inspiram confiança, lealdade e desapego. Aqui na Fazenda Gira Mundo há o Hans, um cão pastor da raça Border Collie, que é o responsável por cuidar das ovelhas. Levou tão a sério essa tarefa que, recentemente, fundou a sua própria Igreja – A Igreja Mundial dos Ossos De Ouro – para difundir o seu conceito de Teologia da Prosperidade. As ovelhas, claro!, são fiéis dizimistas da Igreja do Hans que já pretende abrir filiais nas fazendas e cidades vizinhas e, quiçá, em Angola, Moçambique e outros países de língua portuguesa.

Mas, apesar de ver na iniciativa do Hans uma tentativa de explorar a fé dos mais humildes, ainda assim gosto de cães. Dia desses; levando carga pra lá e pra cá,  passava em frente à Igreja da Matriz, no centro de São João do Quentão, quando vi um homem, cerca de uns 50 anos, sentado no primeiro degrau da escadaria. O sol fumegava em sua cabeça num meio-dia que já custa uma meia-vida pra quem se dispõe a encarar aquela estrela a pino. O homem estava ali, estendendo a mão para quem passava, sem muito ânimo sequer de buscar os olhos de quem lhe dava esmolas, pois que seria como mirar a claridade extrema. Aos seus pés, um cão desses que a mãe é “vira” e o pai é “lata”, compartilhando o mesmo sol escaldante, o mesmo degrau de pedra sabão fervente, a mesma precariedade de tudo. Tinha uma corda fina em volta do pescoço que mais parecia um barbante. Certamente não seria muito eficaz para prender um cachorro, não fosse o fato de o cão deixar-se prender pela própria vontade àquela situação de vida, àquele dono vira-lata como ele.  Gatos não se prestariam a tal demonstração de fidelidade e de entrega. No abandono, o cão encontrou o dono. No mesmo abandono, o dono tinha o cão para consolá-lo bem mais do que as parcas e esporádicas moedas depositadas em sua mão suspensa entre a Terra e Céu, enquanto a outra afagava com carinho o dorso do animal de língua arrastando ao chão, tentando amenizar o calor. 

Passei vendo aquela cena e segui o meu caminho. Na volta, mais ou menos no horário da saída da Missa, vi uma ambulância dos Bombeiros, uma viatura da Polícia, alguns fiéis na base da escadaria. Parei e, entre as pernas dos que ali estavam,  vi o homem estirado no primeiro degrau da escadaria da Igreja da Matriz. Consciente, mas nitidamente abatido, suado, vencido pelo calor, pela sede, pela fome.., quem sabe?! Uma moça fazia carinho em sua cabeça, observada pelo cão que se aninhou junto ao peito de seu dono.  Ouvi um bombeiro comentar com outro: – Ah, é o Sr. Fulano de Tal. Ele volta-e-meia faz isso. Quando a gente vem ver não é nada.

Nada? Para aquele senhor isso poderia ser quase tudo. Concluí que aquele homem tão perto da casa de Deus, nos degraus de Sua Igreja, era o vira-latas de si próprio, o cão invísivel, o sarnento abandonado e desprezado pelo mundo. Ao término da Missa ele costuma simular um mal-estar além daquele já visível de sua condição de desafortunado. Não quer mais as esmolas dadas sem caridade. Quer ser visto, quer um afago em sua cabeça fervente, quer um carinho de moça, moço, senhora, senhor. Quer mais que o pão de trigo; quer o pão espiritual de se sentir humano, mesmo vivendo em condições tão desumanas.

O cão ao seu lado, animal bendito, centelha da Divina Providência, é seu companheiro na escada da Igreja, no canto da praça ou na marquise do prédio em que dormem todas as noites. Os dois se identificam e se completam exatamente no que têm de iguais entre si: a plenitude das ausências.

Segui meu caminho pra fazenda pensando numa frase ouvida há muito tempo, mas que nunca me esqueci:

“Não negue o pão a quem bate na tua porta. Ele pode estar te ensinando o caminho que pegarás um dia”.

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