Wanderlei, o meu anjo da guarda.

 

Sempre tive muita fé na oração do anjo da guarda, desde muito cedo. Oração ensinada por minha mãe quando eu ainda tentava me equilibrar sobre as quatro patas. Sempre achei se tratar de uma oração simples – ideal para os filhotes de qualquer espécie – mas que guarda uma profundidade e uma comunicação direta com os ditos anjos. Eis que, por isso, é uma oração que diariamente está presente em minhas meditações. Mas o que passo a narrar agora é justamente o meu encontro com o meu anjo da guarda. Como pode imaginar o leitor, esse encontro se deu durante o sono na forma de sonho, mas é assim que os anjos encontram um canal de comunicação livre de interferências para se comunicar com os seres no plano físico. Foi assim com José, pai adotivo de Jesus. Foi assim em tantas passagens bíblicas que não me deixam mentir.

Era noite do dia 10 de janeiro de 2011. Depois de um dia puxado de trabalho no arado, preparando uma porção de terra da fazenda para a plantação do milho, fui me deitar cansado. Antes, fiz uma pequena refeição em companhia da Leopoldina – a vaca imperatriz – e conversamos sobre a família real e o tempo do Império no Brasil. Leopoldina é vaca leiteira e tem sua linha nas matrizes que serviram a D. João VI desde sua chegada ao Brasil. Conversa agradável, histórica, sensata, como sempre são as conversas com tão distinta vaca.

Preparei-me para dormir e, como faço todos os dias, dediquei-me às minhas orações. Em particular, naquela noite, com mais fervor à oração ao Santo Anjo da Guarda. Lembro de não tardar a pegar no sono após a quinta Ave Maria, que a essa altura já se misturava com trechos do Pater Noster num claro sinal de que já estava cochilando.

Adormeci por volta de umas 20h. O dia ainda estava ligeiramente claro até a essa hora por conta do horário de verão. Os pássaros ainda faziam algazarra na copa das árvores. As ovelhas, ainda reunidas no outro celeiro, comentavam as noticias do BBB espiado na noite anterior pela fresta da porta da cozinha. O som já não me incomodava. O sono veio se aproximando e lançou meu corpo em pele e osso sobre minha cama de palha. Adormeci!

Em meio ao sono, começou imediatamente um sonho que de tão real creio que também pudesse estar acordado. De súbito, ouvi um estrondo vindo do telhado do celeiro, abri os olhos e vi uma claridade preenchendo o vão livre até o chão e iluminando tudo à minha frente. De repente, o vulto de um eqüino me apareceu nítido no meio daquela luz. Tentei adaptar-me à claridade para ver melhor entre a luz vinda do céu, mas numa fração de segundos ouvi outro estrondo –  dessa vez no chão  – como uma imensa carga que se derruba da carroça quando se descarregam os provimentos na fazenda. Olhei, dessa vez na bruma de poeira que subiu, e vi um pequeno burro – menor do que eu – estatelado à minha frente com uma pequena carroça dourada atrelada às ancas.

– Gabriel?!, indaguei espantado e de joelhos, pensando em se tratar do anjo da anunciação.

– Não!, Wanderleeeei, respondeu o burrico, enquanto tentava tirar a carroça de cima das costas.

– Mas, mas…

– Nada de “mas, mas…” rapaz. Me ajude aqui a sair debaixo dessa cangalha, zurrou ele com autoridade.

Ajudei a retirar a charrete e a libertá-lo, mas continuava com, cada vez mais, muitas dúvidas.

– Mas você é o meu anjo da guarda?, retomei a conversa daquele ponto.

– Não, Filonéscio! Eu sou o burro do telhado. Já ouviu falar no burro do telhado? Ou eu sou a rena do Papai Noel que despencou do trenó. Qual você escolhe?

[sempre acreditei que as renas, na verdade, fossem burros disfarçados, mas achei melhor não insistir]…

– É claro que sou o seu anjo da guarda, continuou ele ainda aborrecido pelo tombo.

– Mas, se você é anjo, por que seu nome não termina em EL, como Gabri-EL, Migu-EL?

– Não seja por isso, interrompeu ele nervoso … – Pode me chamar de Wanderl-EL se isso te faz feliz.

Olhava aquela criatura magra, surrada, estressada e ficava me perguntando por que o meu anjo da guarda não era como eu sempre imaginei. Nas minhas orações ele tinha asas – esse não tem – como o cavalo Pégaso. Nas minhas orações ele era imponente – esse não é – como o cavalo de São Jorge. Nada havia nele que pudesse me dizer que realmente era o meu anjo da guarda. Exceto, talvez, pela carroça dourada que brilhava sob a luz da lua que entrava pelo buraco no teto provocado pela queda do meu anjo.

Permaneci mais uns dois minutos em silêncio, um olho no burro que tentava se recompor do trupique no telhado, outro na carroça que brilhava como os seixos do rio quando o sol está se pondo lá pra perto das bandas do pomar. Ele percebeu minha atenção à carroça e perguntou:

– O que foi?

– É de ouro?, perguntei esticando o beiço pra carroça.

– Folheada!

– Folheaaaaaada?

– É!, folheada, e se dê por satisfeito, retrucou ele novamente irritado.

– Ouro, ouro mesmo, só para algumas e poucas almas humanas que merecem essa recepção ao chegar lá em cima. Pra nós, burros, uma carroça sem farpas já seria uma benção. Folheada a ouro está de bom tamanho, não acha?, perguntou ele com a impaciência que lhe parecia peculiar.

– Qual o seu problema?, perguntei em tom similar ao dele. – Não tenho culpa se você caiu aqui no meio do celeiro como uma jaca pobre. E, aliás, eu esperava do meu anjo da guarda mais do que um burro feio, magro e puxando uma carroça folheada a ouro.

– Você tem culpa, sim, Filonéscio. Eu não ia descer aqui hoje à noite. Mas a sua oração me trouxe quando eu passava por essa via. Você acha que eu também não trabalho o dia inteiro como você? Eu também estava tentando voltar pra casa. Foi sua oração que desestabilizou a carroça, disse ele enquanto mexia na carroça como um mecânico de aviões.

E continuou!, – E não me venha agora querer comprar briga com um anjo. O último que fez isso e prevaleceu foi Jacó e isso já tem é tempo.

– Ãããã, bem, eu…eu…

– Ok! Ok! Não precisa zurrar mais nada. Me ajude aqui.

Colocamos a carroça presa novamente às suas ancas. Ele bateu com os cascos na palha do celeiro como quem aquece os motores para a decolagem.

– Antes de ir, já que caiu aqui por minha causa, diga o que devo fazer. Você não tem nenhuma mensagem para mim?

– Ore pelas coisas que você não pode alcançar com o trabalho. E trabalhe nas coisas que não dependem de oração para se concretizarem., profetizou ele.

Depois disso, meio manquitolando, esbarrando com a charrete nas cercas e arrastando algumas ferramentas presas às paredes, ele subiu aos céus pelo mesmo buraco que o trouxe ao chão.

Acordei (ou tive a sensação de ter acordado), logo depois disso, com o coração nas orelhas. Olhei para o alto, mas não havia buraco algum no telhado do celeiro. Refiz as cenas e o diálogo do que parecera um sonho, mas quando me preparava para dormir novamente, vi uma pequena lasca dourada brilhando no meio da palha. Exatamente no local onde a carroça e o burro despencaram do céu.

Dessa vez, agradeci, e rezei um Salve Rainha que era pra não prejudicar o tráfego aéreo de mais ninguém naquela noite.

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12 respostas para Wanderlei, o meu anjo da guarda.

  1. Ajuricaba disse:

    Crônica de primeiríssima linha. Parabéns

  2. Todos os ingredientes necessários ao gênero puramente brasileiro. 1)humor e 2)leveza . 3)Veracidade (?) Sim. Uma delícia de leitura.

  3. Ari disse:

    Cativante. Ô birrinho jeitoso.

  4. Adriana disse:

    Linda crônica, humor e sensibilidade.

  5. horacio disse:

    Parabéns maravilhoso texto burrico

  6. Vó Zezé disse:

    Muito bom! Belo texto!

  7. livrexpress disse:

    Mais um belo texto do Filonéscio.

  8. Zinha_09 disse:

    Filonéscio, que delícia te ler! Parabéns!
    Vc tem o dom! Dê graças aos céus! Vc foi abençoado.
    Vou recomendá-lo à minha filha para que também venha visitá-lo, ler os seus “causos” que nos ensinam e divertem mto!
    Tentarei vir sempre aqui me deliciar c/ sua prosa cativante!
    Gde abç e novamente,parabéns!

  9. Velvet disse:

    Outro dia, conversando com um amigo sobre uma terceira pessoa, querida por ambos, ele me disse: “Ela é mesmo muito boa gente, mas estressada também.” No que perguntei: “Também? Como assim?” E ouvi de volta: “Estressada como eu e como tu és.”

    Resumo: meus amigos são todos estressados. Acho que meu anjo da guarda é assim, como o seu, igualzinho. Não teria a menor paciência comigo, apesar de gostar e de zelar por mim…

    Linda mensagem!

  10. Maria Edi disse:

    Hahahaha!!! Adorei o mau humor do Wanderl-El. E anotei a mensagem dele. Vou rpeassar no meu bloguezinho. Um beijo carinhoso no focinho.
    (MaryB-Edi)

  11. Maria Edi disse:

    opa, é “repassar”. Beijo no focinho, dinovu.

  12. ana maria disse:

    Adorável! Eita anjinho brabo! rsrs – Mas nada como a certeza de termos um anjo para nos auxiliar. Deus seja louvado – Salve Maria!

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