Fidel e a Revolução Virtual, ou: – Quem vai tirar o bode da sala?

Fidel, como muitos que acompanham o que se passa por detrás das extensas cercas desse blog já sabem, é o bode bolivariano aqui da Fazenda Gira Mundo. Está aqui nessa ilha de tranqüilidade há muito tempo – uns 50 anos, no mínimo – mas vive agitado com qualquer acontecimento que mude um pouco a rotina da roça. Vive resmungando (como todo bode velho) acreditando que a modernidade dos dias de hoje, aliada ao capitalismo selvagem estão modificando o modo de vida pelo qual ele batalhou tanto na juventude. Os bichos da fazenda não dão muita bola pra ele. O povo da casa grande também nem lembra que ele existe. Tirando uma ou outra ocasião extraordinária como, por exemplo, quando recebe visitantes famosos como uma maritaca faladora de Caracas ou de um velho amigo anta de São Bernardo do Campo, Fidel passa seus dias de modo quase imperceptível na fazenda.

Pois bem!, mas chegando numa idade em que as recordações do passado insistem em assombrar os pensamentos do presente, Fidel começou a se distanciar da realidade. Não que toda a sua vida não tenha sido de pensamentos que desafiaram a realidade. Mas, na juventude, ele tinha forças para moldar a realidade à sua volta da forma como bem queria. Agora não era mais assim: nem mesmo os jovens de espírito sempre revolucionário por estupidez ou rebeldia – ou as duas coisas juntas – davam mais bola para os discursos longos e cheios de prosopopéias do antes temido comandante-em-bode.

Esse tipo de coisa dava um desgosto profundo no Fidel, sempre tão acostumado a liderar outros bichos durante a sua idade de ouro. Ocorre que o capeta está sempre pronto a soprar em nossos ouvidos idéias idiotas como se fossem a solução para os problemas do mundo. E com o Fidel, que viveu toda uma vida dedicada a idéias estúpidas, não poderia ser diferente.

Tudo começou quando o Alipio Neto – um moleque endemoniado de 7 anos que é neto do patrão – ganhou um tal de Wii que quem viu disse que era uma espécie de vídeo game. Segundo palavras do Maçarico – o gato da casa grande – é um aparelho que liga na TV e as pessoas acabam virando bonequinhos na tela do equipamento e conforme vão se movimentando do lado de fora, os bonequinhos vão se movimentando do lado de dentro imitando o movimento do sujeito que pula e se sacode do lado de fora. Entenderam? É um negócio difícil de explicar, de entender…enfim, coisa de gente.

Acontece que o tal do Uí (acho que é assim que se pronuncia) virou uma febre entre os humanos da casa grande. Todo mundo da família se reúne nos finais de semana pra jogar o tal do jogo do moleque. O Maçarico disse que estão fazendo até campeonato. Até o patrão mais a patroa jogam o tal do joguinho se balançando na frente da TV. Sei porque fiquei espiando pela janela outra noite dessas. Eu e o sacana do Muçarela que não cansava de fazer piada com os quilos a mais da Dona Patroa.

O joguinho virou febre mesmo na fazenda. Logo estavam vindo outras famílias de fazendas vizinhas pra jogar também. Veio o povo da Fazenda Esmeralda, da Fazenda Sete Léguas e até da Fazenda Fica Longe que, como o próprio nome já diz, é coisa de dois dias de viagem por dentro das outras terras até chegar aqui.

E com esse reboliço todo de gente chegando de carro, trator, carroça e até a pé vindo do centro da cidade, o Fidel entrou em parafuso, surtou, endoideceu, pirou na batatinha. A fazenda quase nunca recebe visita dessa variedade e quantidade. Vai!, quando muito em mês de festa junina, aniversário de alguém da casa ou quando morre alguém muito querido do patrão e o povo inteiro se junta pra beber o defunto. Mas isso dura um dia – no máximo dois – como no caso em que o Cumpadre Roberval morreu e deu um salto mortal (deveria ser vival) no meio do velório, caiu de pé em cima da tampa do caixão, fez uma profecia ao estilo de Nostradamus, deu uma carreira pra fora da casa, trupicou na escada e bateu a cabeça no degrau morrendo de novo. Coitado do Cumpadre Roberval!, morreu duas vezes no mesmo dia e teve dois velórios: no segundo se certificaram de amarrar bem a “Daiane dos Santos” no caixão. Vai que ele resolve dar outro triplo twist carpado no cemitério? Mas isso já é uma ouuuutra história que não cabe contar aqui.

Onde eu estava mesmo? Ah, sim…pois bem, o Fidel. O Fidel, vendo aquele alvoroço de gente e bicho e veículo e coisa e tal, decidiu que era o momento que ele precisava para pregar novamente seus ideais bodevarianos a toda aquela gente. Sabia que não teria outra oportunidade como aquela e, agora, tinha um inimigo a derrotar, um inimigo que simbolizava a sociedade de consumo, a burguesia opressora, o Capitalismo hipnotizador das mentes e devorador dos corações do povo e dos bichos simples do interior.

Decidiu que era chegada a hora de fortalecer a revolução que ele implantara havia 50 anos naquela mesma fazenda e que agora estava enfraquecida pelo desinteresse dos mais jovens, alienados de tudo, vitimas das futilidades cosméticas imperialistas. E para isso, nada melhor do que valer-se do próprio inimigo para atrair novos simpatizantes à sua velha causa. Ele iria derrotar essa ameaça a partir de seu interior como prega a velha e eficiente tática comunista.

Numa noite de sexta-feira, depois de esperar todo mundo ir dormir e sabendo que para o final de semana já havia um campeonato do tal do Wii marcado na casa grande, o Fidel deixou o celeiro de forma silenciosa e, de algum jeito que ninguém soube como até hoje, conseguiu entrar na casa do patrão na calada da madrugada. Quando amanheceu, o primeiro que deu de cara com o bode no meio da sala foi o remelento do moleque Alipio Neto. O guri deu um grito de susto, mas quando viu que a TV estava ligada e o Fidel mastigava o controle do Wii, fez aquilo que todo moleque que tem pacto com o Sete-Peles faria: deu um chute no meio das bolas do Fidel que, por pouco, não engoliu o controle remoto do vídeo-game. Pobre Fidel, mal conseguia segurar as lágrimas que brotaram no canto dos olhos.

– Essa é uma reação desproporcional desses burgueses insensíveis quando o proletariado reclama pra si o resultado da Mais-Valia. – sussurrou o Fidel com uma voz fininha e com as pernas traseiras cruzadas e ligeiramente flexionadas.

O garoto Alipio Neto correu pra cozinha feito um foguete onde parte da família se preparava pro café da manhã e, gritando e chorando, foi reclamar com o avô que aquele bode fedorento estava lá na sala comendo o controle remoto do bendito jogo.

– Como é possível? O Fidel está na nossa sala? – perguntou surpreso o patrão.

Foram todos pra sala e deram de cara com o Fidel sentado no sofá mastigando o controle do Uí.

– Nossa!, que fedor. – reclamou a Dona Patroa da catinga revolucionária do Fidel.

Duas sobrinhas-netas do patrão vomitaram no tapete por causa do cheiro do bode e o moleque Alipio Neto mesmo aperreado por seu vídeo-game estar na boca do Fidel, não pode conter a gargalhada de deboche das primas. Os funcionários que estavam na casa não tinham jeito no trato com os animais. Só tinha cozinheira, arrumadeira… ninguém tinha a mínima ideia do que fazer pra tirar o bode da sala. O patrão mandou então buscar os peões pra ver como fazer pra tirar o Fidel que agora estava deitado no sofá com o controle entre os dentes. Só que não tinha peão na fazenda, pois uns tinham levado uma comitiva pro Mato Grosso do Sul e os outros estavam na estrada trazendo mais gente pro campeonato de Uí.

– E agora, como faz, Alipio?, perguntou a Dona Patroa impaciente com o bode sapateando no parquet paulista de sua bela sala de visitas.

O patrão, apesar da confusão que o Fidel estava aprontando, gostava do danado do bode. Afinal, foi um dos primeiros bichos que ele teve quando ainda dava pra ver as cercas que limitam a fazenda. Hoje, só com GPS ou naquele outro tal de Google Maps pra ver em que lugar foram parar as cercas da Fazenda Gira Mundo. De olhar pro horizonte não se vê é nada: só terra verde plantada de tudo, subindo e descendo colina e, até onde os boizinhos são do tamanho de joaninhas, é tudo do patrão. E por isso, ele também sentia que tinha uma divida com o Fidel já que começou lá atrás vendendo leite de cabra e os cabritinhos que outra coisa não eram que os próprios filhotes do velho bode.

Mas vai que começaram a chegar as visitas pro campeonato de Uí. Todo mundo se acotovelando na porta da sala pra ver o bode maluco que continuava mascando o controle remoto do jogo e se balançando na ponta dos cascos.

– Vamos deixar ele aí que depois se cansa e vai embora. – decretou o patrão chamando o povo pro almoço, mas não sem uma certa piedade do bicho no intuito de evitar ter de mandar os peões que chegaram com as visitas botarem o velho bode pra correr da sala.

E com isso ficaram só o Fidel, o Uí e o Maçarico na sala. Não havia a platéia que o Fidel esperava que chegasse pra ouvir o seu demorado discurso. Não que ela não tivesse vindo, mas ninguém agüentava o cheiro de bode de suas idéias caducas. Preferiram ficar lá fora mesmo, proseando, dedilhando viola e comendo churrasco.

E assim a revolução do Fidel ficava ali: latente, mas esquecida de todos. Nem mesmo o Maçarico dava bola pros resmungos do bode. Dormiu de ronronar enquanto o Fidel permanecia reclamando com o controle remoto entre os dentes.

Por fim, lá pelas cinco da tarde, bateu a fome e o Fidel teve de sair pra buscar alguma coisa pra comer. Quando meteu as quatro patas pra fora da casa, o neto do patrão, como um relâmpago, apareceu atrás dele e mandou-lhe outro chute no meio das bolas, fechando a porta da sala nas suas costas logo em seguida. O Fidel dessa vez não conteve o grito de dor:

– Méééééééeééu saco, seu pequeno burguês filho de uma que ronca e fuça!

Os convidados que almoçavam junto à churrasqueira só ouviram as duas primeiras letras da frase gritada pelo Fidel e quando chegaram na sala deram de cara com o capeta do moleque fazendo careta pro velho bode pela porta de vidro.

Então todos puderam pegar seus lugares – não sem uma boa dose de álcool no controle remoto e um spray de bom ar na sala – para começarem o campeonato de Uí.

O Fidel?

Bem, ele voltou mancando pro celeiro, um bocado chateado por não ter conseguido fazer a sua nova velha revolução; mas, passado o final de semana, não conseguia esconder dos outros bichos uma ponta de satisfação e um sorriso no canto da boca ao saber que ninguém na casa bateu seu recorde no Mario Sports Mix.

Era, de alguma forma na cabeça do Fidel, uma demonstração incontestável da superioridade intelectual dos revolucionários de esquerda. Isso ninguém tiraria dele. Ele havia derrotado o inimigo em seu próprio território virtual. E agora estava tudo gravado na página de scores do tal do Uí.

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5 respostas para Fidel e a Revolução Virtual, ou: – Quem vai tirar o bode da sala?

  1. Sandra Infante Vieira disse:

    Muito bom, rachei o bico de rir. Como sempre fico impressionada com sua forma tao criativa de escrita. Bjks Burrico charmoso.

  2. Ajuricaba disse:

    A cada vez que seus amigos da Gira Mundo se apresentam é possível literalmente vê-los. Genial a cena do Fidel amaldiçoando o curumim.

  3. Zinha_09 disse:

    rsrsrsrs Mto boa,Filô! Ri mto!
    Agora,acho que “comi bronha”! Por que o gato chama “Maçarico” mesmo?
    Adoro os nomes sugestivos que vc coloca, só que mtas vzs me confundo! rsrsrs

    Coitado do Fidel…é um “fora do tempo” igualzinho ao “Xará”,né não? Coitado…

    • Oi Zinha,
      Aqui é o alterego do Filonéscio. Ele mandou – é!, porque é ele quem manda aqui – dizer que o nome do gato é Maçarico porque tem garras tão afiadas que arrancam faísca quando corre pelo telhado de zinco do galpão de ferramentas. Mas isso foi há muito tempo. Hoje, o Maçarico só gosta de ficar ou dormindo ou em cima do muro. Tanto que se filiou ao PSDB daqui de São João do Quentão, mas a preguiça faz com que não faça nada.

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