Tonhão e o Acontecimento do Ano

 

 

Cumprimentou apressado quase na mesma velocidade com que passou:

- Tardipessoal….!!!!

- Eita, vai aonde com essa pressa toda Tonhão? – perguntou virando o pescoço quase todo o Azambuja – a coruja professor de História.

- Nãodátempodefalaragoratoatrasado – berrou o Tonhão com a voz já sumindo enquanto ele batia asas virando uma curva na alameda que dá pro pomar.

O Tonhão é o beija-flor bombeiro florestal da Fazenda Gira Mundo e toda vez que a gente vê um bombeiro correndo, manda o bom senso e o juízo do instinto de sobrevivência estar atento para os piores acontecimentos.

O Azambuja comentou comigo:

- Que será que ta acontecendo pra ele passar nessa pressa toda?

- Faço idéia não, meu caro  professor. -  respondi, mas não sem um ar de preocupação.

Tonhão era sujeito direito, prosador, conversador, falador. Gostava de conversa e falava rápido quase como na velocidade com que batia as asas. É certo que estava sempre voando apressado pra cima e pra baixo, se não pra combater incêndios – raros aqui na região – mas para, sem querer, polinizar as flores e fazer xarope dus bão que sua avózinha – uma doce senhorinha beija-flor – vende num oco de um abacateiro lá no centro de São João do Quentão.

Mas o que haveria de fazer com que o Tonhão passasse assim tão apressado que até o cumprimento ficou na levada do vento? Será que também estava planejando greve? – não sei!, agora virou moda greve de bombeiro, policial etc. Só quem não tem férias nem faz greve é bandido.

Ou haveria o Tonhão também se seduzido por alguma ONG ambientalista? Tô vendo tudo: vai voltar vestido numa camiseta do “grinpissi” e reclamando das sacolas plásticas dos supermercados. Xiiiii, vai ser difícil aturar. Sujeito quando entra pra essas igrejas eco-pentelhotais , fica mais abilolado que minhoca olhando pro Sol.

- Será que tá pegando fogo lá pros lados do pomar? – perguntou o Azambuja, parecendo também estar checando todas as possibilidades da pressa do beija-flor.

- O céu está azul e não vejo fumaça lá praquelas bandas. – respondi, descartando a possibilidade.

De repente, mais um monte de bicho começou a passar correndo na mesma direção do Tonhão.

Primeiro vieram outras beija-flores (fêmeas, muitas delas, apressadas e frenéticas, rindo alto entre cochichos e aquele zum-zum-zum do bater  de asas)

Depois se seguiram algumas saíras, canários-da-terra, biquinhos-de-lacre e até pardais (todas fêmeas também)

- Estranho! – exclamou o Azambuja.

Não demorou e vieram mais 20 galinhas, 8 peruas, 6 porquinhas e 35 codornas…

- Muito estranho! – continuou o Azambuja me olhando e olhando praquela procissão virando o pescoço freneticamente quase que 360 graus.

Aí o negócio complicou de vez. Surgiram correndo mais 15 patas, 4 antas, 22 marrecas, uma capivara que estava hospitalizada não havia dois dias e uma andorinha norte-americana com um forte sotaque ianque.

- Filonéscio, ou a fazenda pegou fogo ou praonde foi o Tonhão devem estar construindo outra Arca de Noé e eu é que não sou trouxa de ficar aqui esperando o dilúvio. – decretou o Azambuja com toda a razão.

- É!, vamos lá ver o que é isso. – concordei já que aquela correria no meio da tarde não era algo normal.

Seguimos pela alameda que leva pra área do pomar, mantendo a direita porque a bicharada continuava passando correndo, voando e até nadando já que o rio serpenteia por trás dos campos, desaparece num sumidouro antes do pomar pra aparecer de novo lá na frente.

- Sai da frente!, gritou a Leopoldina – a vaca imperatriz -  acompanhada de mais duas amigas do curso de Cup Cakes Lights.

- Oh Dona Leopoldina!, que negócio é esse que todo o povo ta correndo pro pomar? – perguntou o Azambuja.

- Ah, professor, é uma coisa linda, o evento do ano na Gira Mundo, lindo, lindo, lindo! – bradou a Leopoldina dando saltinhos com as duas vacas colegas de curso.

Ai que aquilo já estava ficando enigmático demais pro meu gosto. O que haveria de ser? Disco voador não era porque ainda tava muito claro pra esses espetáculos, rodeio não era porque o Terremoto estava em uma cidade do interior de Minas só pra uma exposição agropecuária. Leilão de cavalos também não porque o Cristiano Ronaldo também tinha passado correndo todo cerelepe com a Jéssica Alba.

Por fim, depois da longa caminhada que leva até o pomar, parecendo estarmos numa procissão de Corpus Christi ou, mais ainda, no próprio êxodo dos hebreus do Egito ou, pior ainda, um  remake deWoodstock só com bichos (de verdade), chegamos ao lugar pra onde todos da Fazenda Gira Mundo pareciam  ter ido. Até de outras fazendas da região tinha bicho como pude comprovar ao avistar os cumpadres Chico Torres – um tamanduá-bandeira da Fazenda Sete Léguas – e o Noves Fora – um macaco matemático amigo do Nove Horas – o macaco metódico daqui da fazenda – que veio lá da Porco do Mato.

- Taarrrrrdi, cumpadres?! – caprichou no caipirês com bastante simpatia o Azambuja.

- Tardi!

- Tardi! – responderam os dois sem nenhuma empolgação.

- Até vocês por aqui? – perguntei sem tirar os olhos de uma grande aglomeração junto a um pequeno, pequeno mesmo, palco montado na sombra de uma tamarineira.

  – Pois é!, – respondeu o Chico Torres – a mulher ficou torrando a paciência que queria vir.

- E a minha? – completou o Noves Fora – Disse que se a gente não viesse nada da minha vitamina de banana com aveia por uma semana.

E lá perto do palquinho sob os galhos da tamarineira, coisa distante ainda uns 100 passos de onde estávamos, eu continuava ouvindo a gritaria de um monte de fêmeas.

- Já sei!, deve ser reunião da Avon. – chutou o Azambuja.

- Não! – respondeu o cumpadre Chico Torres.

- Sorteio pra um final de semana naquele SPA que inaugurou recentemente?

- Não!

- Culto do Hans – o cão pastor -  com sessão de Desencapetamento Total ou Parcial na promoção?

- Não!

- Promoção de panelas de barro? – arrisquei só de deboche.

- Hehehe!, também não. Vão lá dar uma olhada! – incentivou o Chico Torres

E eu e o Azambuja que, afinal de contas, não estávamos fazendo nada, resolvemos atravessar aquele mar de gente, digo, bichos, pra ver que diachos acontecia no pé da tamarineira.

Conforme a gente ia chegando mais perto, o burburinho dava lugar a gritos histéricos da bicharada. Coisa de louco: um monte de animais passando mal, ambulância do pronto-veterinário de plantão até com desfribilador. Mais perto, cerca de 10 passos, mas sem conseguir enxergar ainda do que se tratava, só percebia uma enorme quantidade de jornalistas da Folha de São João do Quentão e tantos flashs que deixaram o Azambuja tonto.

- Não vai passar mal agora, né? – perguntei preocupado.

- Eu tenho hábitos noturnos, burro. Essa quantidade de luz está acabando comigo.

Mas o Azambuja puxou um óculos escuro – meio démodé – e nós continuamos até bem perto do epicentro. Chegando lá, depois de passar a cara pelo suvaco suado de uma ema de 2 metros de altura,  eis o cenário com que nos deparamos:

Um palco do  tamanho de uma caixa de sapatos  (acho até que era alguma caixa de sapatos de alguém da casa grande), forrado com um pano verde de veludo parecendo trapo de mesa de carteado. Uma lagartixa limpava de tempos em tempos o que parecia ser a passarela, tirando as folhas da tamarineira que porventura caiam no palco. Um vagalume era o responsável pela iluminação do evento e uma gralha fazia a locução. Era tanta produção que parecia o tapete vermelho – nesse caso, verde – do Oscar.

E os flashs continuavam com tanta intensidade que tive de conduzir o Azambuja, mesmo de óculos escuro – até a zona do gargarejo do palco. Duas graúnas negras como uma noite sem lua, num estilo meio gótico, meio Amy, reclamaram do empurra-empurra, mas eu acabei conseguindo espaço alegando que a coruja era deficiente visual.

E então chegamos bem perto do palco, primeira fila. Finalmente descobriríamos que fuzuê era aquele. E qual não foi a surpresa ao ver o Tonhão – vocês se lembram, o beija-flor bombeiro florestal – entrando na passarela de caixa de sapatos vestindo uma sunga menor do que a unha do dedo mindinho de um bebe. Ficamos – eu, na verdade, pois o Azambuja ainda não conseguia enxergar nada na linha de tiro de tantos flashs – abismados. A correria toda do Tonhão era pra não se atrasar pra sessão de fotos do calendário dos bombeiros de São João do Quentão. Era uma cena que não valia a pena todo o sacrifício pra chegar perto como fizemos. Sorte do Azambuja que continuava atordoado e sem ver nada, apenas clarões.

Cada vez que o Tonhão mudava de posição para uma nova fotografia, as  fêmeas entravam numa espécie de delírio coletivo: era uma gritaria enlouquecedora. Muitas passaram mal e foram socorridas. Algumas ficavam mais contidas, pois sabiam que os maridos estavam observando de longe (caso das senhoras do Chico Torres e do Noves Fora). Mas o restante parecia tragado por uma hecatombe nuclear como se  um único evento pudesse reunir a histeria de fãs dos Menudos e Beatles juntos.

No ápice da alucinação coletiva, quando o Tonhão tirou umas fotos simulando retirar a pequenina sunga, a força uterina das fêmeas foi tão grande que eu acabei me soltando do Azambuja. O pobre coitado ficou lá perdido no meio daquela tempestade de hormônios femininos enquanto eu nadava por sobre patas e asas, tentando sair daquele lugar. Na última vez que consegui olhar pra trás,  vi o Azambuja sendo jogado de um lado pro outro feito uma petaca com grandes olhos: uma cena aterradora!

Eu consegui voltar pra fazenda um tanto arranhado e prometendo nunca mais ter a curiosidade de querer saber o que se passa no meio da turba. O Azambuja, pobrezinho, não teve a mesma sorte. Teve o óculos roubado, perdeu seu livro de cabeceira e foi hospitalizado em virtude da fotofobia e das escoriações provocadas por aquelas amazonas enfurecidas. Está se recuperando, mas também já prometeu pra si mesmo que quer distancia de qualquer manifestação que reúna muitas mulheres ao mesmo tempo e  no mesmo local.

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4 respostas para Tonhão e o Acontecimento do Ano

  1. Suspense….Nossa…
    Fiquei aliviada no final. Medo danado de ser um comício do Expirado. Ufa!

  2. Acho que é isso que chamam de *guerreiras* e *batalhadoras*. Só você mesmo para esclarecer o que significam esses adjetivos. Vi a luz!.

  3. Lucia Fraga disse:

    hahaha… Ótimo!!! Mas tenho que confessar, no início pensei como a Regina Brasilia. Uffa! Que alívio!

  4. Com sempre genial. Cabe uma dúvida: tem alguma Luma pela aí pela Gira Mundo? Eike eu sei que não tem…Grande abraço meu burrico amigo

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