Rodolfo, o pombo “cristão”. (Parte II)

 

II

O Catequista

Agora sim existia uma ameaça real à soberania do Rodolfo dentro da igreja. Entre as dobras do manto de Nossa Senhora o pombo assistia à movimentação na secretaria em volta da gaiola daquele pavoroso gavião. Até então, tudo o que o padre havia tentado não chegou nem a atrapalhar as apresentações do Rodolfo antes das missas. Mas agora havia um risco físico presente para a saúde do pombo, e ele, definitivamente, não tinha tanta fé assim pra lidar com aquela situação.

Por sorte, a Semana Santa se aproximava e ninguém na igreja queria testar o gavião contra o pombo durante aqueles dias. Ninguém tinha idéia do que poderia acontecer, apesar de terem garantido ao Pe. Henrique que o gavião era treinado para apenas perseguir e capturar a sua presa sem nem mesmo machucá-la. Quem poderia garantir que não haveria algum efeito colateral? E a última coisa que o Pe. Henrique gostaria de ter era um pombo mártir na véspera da Páscoa.

Pensando nisso, o padre decidiu deixar o gavião numa parte coberta da área externa da igreja, próxima ao velário (cruzeiro), e só utilizar de seus serviços depois do domingo. O Rodolfo que acompanhava tudo na barra da saia de Maria, tão logo percebeu que todos haviam ido embora, resolveu se aproximar da gaiola.

– Ééééé….bom dia! – disse o Rodolfo  pousado num vaso de comigo-ninguém-pode ao lado do velário, bem em frente a gaiola, mas a uma distancia segura.

– Oh, bom dia irmão! Que bendita manhã de chuva, não? Uma benção para essas plantas que, reparei tão logo cheguei aqui, estão bastante ressecadas. Creio que o Sr. Jeremias anda muito preocupado com os canteiros floridos na frente de igreja que não teve tempo de cuidar de nossas irmãs aqui do velário. – respondeu o gavião com uma voz poderosa, mas ao mesmo tempo gentil e serena, coisa que causou um grande espanto no Rodolfo que jamais havia visto um gavião pessoalmente, mas sabia da fama da fantástica ave de rapina.

– Realmente! – respondeu o Rodolfo que na verdade nunca havia reparado nas plantas ou em qualquer outra criatura viva, uma vez que ele já ocupava todo tempo que tinha dando atenção a si mesmo e às suas necessidades mais imediatas.

– O senhor seria exatamente quem? – continuou o Rodolfo de forma tímida, mas movido por uma curiosidade imensa pela primeira impressão que teve do gavião dentro da gaiola.

– Ora, que falta de educação de minha parte. Perdoe-me! Irmão Estevão da Ordem dos Gaviões Agostinianos Recoletos. – respondeu a ave.

O Rodolfo achou que aquilo era uma piada. Começou a desconfiar de que era uma pegadinha do Pe. Henrique. Começou a procurar câmeras escondidas perto da gaiola e escutas plantadas entre os vasos no velário. Depois pensou que aquilo poderia ser uma estratégia do tal do Estevão – vai ver nem era esse o nome dele – para ganhar-lhe a confiança e depois dar o bote. O Rodolfo entendia muito bem desses estratagemas, pois diversas vezes já havia aplicado expedientes semelhantes para conseguir algum pequeno inseto de almoço. Anunciava-se como missionário e quando o crédulo ouvinte lhe dava espaço –  ZAZZZ – ele o surpreendia com uma bicada fatal. Pensando nessa possibilidade o Rodolfo, que nunca teve cérebro de rolinha, voou para um ponto mais distante da gaiola do Irmão Estevão que nem percebeu a desconfiança estampada nas penas brancas do pombo.

Pousado num xaxim de uma samambaia bem vistosa num patamar mais alto que o da gaiola do Irmão Estevão, o Rodolfo continuava o interrogatório:

– Mas o Irmão está aqui em São João do Quentão por que razão mesmo? – tentou apurar o espertíssimo pombo.

– Sim, estou aqui numa missão de evangelização. – respondeu o gavião, acrescentando. – A paróquia dessa cidade parece estar enfrentando alguns problemas com certos membros que se dizem muito cristãos, mas que estão um tanto quanto equivocados.

O Rodolfo imaginou que pudesse ser com ele, afinal, o Pe. Henrique tentara de tudo para colocá-lo na linha ou mesmo para que ele deixasse de morar na igreja. Mas ao perceber que o Irmão Estevão não havia falado aquilo como quem estive blefando, – ao menos já começava a parecer para o pombo que o gavião não mentia – fez-se de desentendido e continuou a conversa. Porém, a cada nova resposta do gavião, o pombo se sentia mais a vontade e em pouco tempo já estava sobre a gaiola. Tudo que o Rodolfo questionava era respondido com sabedoria e paciência pelo Irmão Estevão. O Rodolfo ficava cada vez mais impressionado com a figura de seu novo amigo.

Na manhã seguinte, bem cedo, o Rodolfo já estava lá em cima da gaiola do Irmão Estevão para continuarem a produtiva conversa que haviam interrompido no final da tarde de segunda-feira. E isso se repetiu durante toda a semana que antecedeu a Páscoa. E a cada nova manhã o Rodolfo encontrava o Irmão Estevão rodeado de outros bichos que vinham para ouvir suas colocações sobre o Evangelho. Estavam lá, por exemplo, dois pardais que viviam em pé de guerra por questões envolvendo uma herança deixada pelos seus pais, um camundongo conhecido pelos pequenos furtos que praticava na feira depois da missa de domingo, andorinhas individualistas que acreditavam que sozinhas poderiam fazer o verão, e até um jabuti que vivia entre os vasos de planta do velário e que, pela idade avançada e por estar longe da gaiola, pedia para o Irmão Estevão falar mais alto. O pobre do jabuti vivia há anos na igreja e nunca ouvira falar daquele moço chamado Jesus Cristo. E o Irmão Estevão falava mais alto sobre Ele com um incrível brilho nos olhos que encantava a todos.

O Rodolfo se via cada vez mais maravilhado com a Boa Nova contada pelo gavião. Mas não que ele fosse como o velho jabuti que nunca havia ouvido falar daquele rapaz nascido em Belém. Ele já ouvira muitas vezes o Pe. Henrique falar do moço ensangüentado pregado àquela cruz atrás do altar, mas a sua vaidade não deixava que ele ouvisse com atenção nada que fosse realmente importante. O Rodolfo passava os dias querendo ser notado, aplaudido, fotografado. Só que ao ouvir o Irmão Estevão falando para tantos bichos igualmente pecadores como ele, algo mais radiante por baixo de suas penas se acendeu.

(continua…)

 Rodolfo, o pombo “cristão”. (Parte III)

 

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