Chico Pamonha, Tonhão Capivara e o Disco Voador

Chico Pamonha e Tonhão Capivara são dois peões conhecidos em São João do Quentão. Amigos desde os tempos em que corriam para tentar lançar os bezerros, os dois cresceram entre as cercas das fazendas da região. Tonhão era o mais corajoso, sujeito grande, forte, pra não dizer enorme de gordo que é pra ninguém me acusar de lipidiofóbico. Já o Chico era menorzinho, medroso, franzino parecendo um chassi de frango atropelado. Mas a diferença entre os dois não impedia a amizade e nem o trabalho duro a que se dedicavam diariamente nas fazendas em que trabalhavam tocando gado.

Certo dia, acho que foi numa sexta-feira à noite, os dois amigos estavam bebendo na venda do Seu Juca Ambrósio, quando Marivaldo Menezes – peão de outra fazenda da região – perguntou se eles iriam no churrasco que o Dr. Osmar daria na Fazenda Olho de Sogra que fica na pequena Santa Dorotéia – cidadezinha a uns 18 quilometros de São João do Quentão. Tonhão e Chico conheciam todo mundo na Olho de Sogra e decidiram que iriam no tal churrasco na manhã seguinte. Chico quis marcar com o amigo de irem juntos, cada qual em seu jegue, mas Tonhão disse para que ele fosse na frente que chegaria lá um pouco depois com uma surpresa.

Diacho de surpresa seria essa? – pensou o Chico, mas assim foi e na manhã seguinte, bem cedo, o Chico Pamonha pegou a estrada sozinho pra Santa Dorotéia montado no seu burrico, o Talarico. Chegando na fazenda do Dr. Osmar já era possível ouvir o som do forró e o cheiro dos primeiros cortes de carne chiando na churrasqueira. Tinha era pra mais de 1.000 só numa primeira espiada que o Chico deu enquanto se aproximava da porteira. Era aniversário da Juliana, a neta de 5 anos do Dr. Osmar, e o velho fazendeiro não economizou foi dinheiro pra fazer a festa da menina. Tinha de tudo um bocado de coisa. Parquinho, comida de tudo que era tipo, personagens de desenho animado sendo perseguidos pelas crianças, tudo quanto era marca de refrigerante e muita cerveja sendo servida como se jorrasse da Cachoeira do Rio da Mata.

O Chico foi se chegando devagarzinho montado no Talarico até um grupo de peões que conhecia de outra fazenda. Desembarcou do burrico e o colocou junto com os outros asnos e cavalos do pessoal. Procurou algum sinal do Bofete – o jumento arrogante do Tonhão Capivara – mas não encontrou o bicho no estacionamento. Mas não demorou muito para que um alvoroço tomasse conta de todo mundo que estava na área do churrasco na fazenda. Entrando pela porteira, feito touro bravo levantando poeira, eis que vinha o Tonhão montado, não no Bofete, mas numa motocicleta pra lá de endiabrada. Todo mundo aplaudiu quando o Tonhão dando uma empinada na moto terminou por estacionar a bicha bem perto do Talarico – o burro do Chico – que só olhou de lado com um certo desprezo enquanto a poeira lhe cobria os olhos.

O Chico vendo aquilo se chegou rápido junto do velho amigo e perguntou:

– Então era essa a novidade, Tonho?

– Ajude aqui Chico, meu velho! – clamou o Tonhão sem conseguir descer da moto que já pendia e pesava pro lado da perna direita que era a que tinha mais varizes.

Tonhão era gordo, pesadão e a moto era um CG bem da magrinha. Seria fácil pra um homem do tamanho dele segurar a moto equilibrada, não fosse o problema de circulação nas pernas. Pra complicar a piada, o banco da moto era estreito e a bunda do Tonho era larga. Tirar a moto do homem (e não o homem da moto) foi como tirar uma calcinha/cueca que se aloja sem ser convidada entre as nádegas.

Mas, enfim, conseguiram salvar a moto e todos continuaram na ocupação principal do dia: comer e beber. E todos comeram e beberam muito, além da conta. Com tanta fartura de tudo, foi um tal de peão beber até uísque e comer canapé de foie gras. Um exagero do Dr. Osmar! Mas quem poderia condenar o homem por querer festejar com alegria o aniversário de uma neta? Ninguém! E ninguém falou nada nesse sentido visto que as bocas permaneciam o tempo todos ocupadas de comida ou bebida. Quem não sabe beber, que não beba. Esse sempre foi o lema.

Lá pelas 6 da tarde, sol já indo embora, metade dos peões esticados pelo gramado, bêbados de dar dó, o Chico virou-se pro Tonhão anunciando que já era hora de irem embora. O Tonhão, que ainda tinha espaço na pança que parecia querer explodir de tão cheia, ainda queria continuar bebendo e comendo e dançando no meio do pátio. Nunca se sabe quando algum fazendeiro dará uma outra festa daquelas e, nesses casos, é melhor comer e beber e dançar tudo o que for possível como se o mundo fosse acabar amanhã.

– Larga mão dicê tonto,  Chico. Vamu ficá até cabá a cerveja e a carne. Depois a gente vai-se imbora pra casa. – disse o Tonhão, bêbado como um gambá vigilante noturno de Cachaçaria.

O Chico – que também não estava bem das pernas e nem da cabeça cheia de álcool – comentou, preocupado:

– Mar Tonhão,  amigão, a noite tácaindo e pegarssa ixxxxtradinha daqui pra São João no Talarico,  sem luz  sem acostamento,  é meio perigoso, não acha não?

– Deixa cumigo Chico. Alguma vez eu te deixei na mão? Vamu fazê o seguinte: eu vou na frente iluminando o caminho com a lanterna da moto e você me segue. Vamu daqui até lá na pisada do burrico que chegamu em segurança.

Parecia uma boa idéia pro Chico seguir o Tonhão, e então seguirão os dois bebendo, comendo, dançando e cantando na festa da Juliana. Saíram de lá – pra não dizer que foram expulsos – já pelas onze da noite. O Tonhão teve de fazer mira em direção à porteira da fazenda pra conseguir pegar o rumo da estrada (isso sem falar no trabalho que foi colocar o Capivara em cima da coitada da moto). O Chico já teve menos trabalho porque o Talarico – burro velho de guerra e que já conhecia o dono – o ajudou a montar.

E assim foram os dois para a estrada que liga Santa Dorotéia a São João do Quentão. O Tonhão montado na moto na frente e o Chico seguindo atrás montado no seu burrico. Lá pelas tantas, o Tonhão começou a acelerar e  se afastar cada vez mais do Chico que, sem sucesso, gritava pro amigo ir mais devagar. Tentou fazer o Talarico andar mais rápido, mas o burrico nem chegou a ameaçar uma corridinha visto que sem luz na estrada e nem estrela no céu, era difícil enxergar um palmo à frente do caminho.

– Tonhãããããão!!!!! – gritou uma última vez o Chico Pamonha até que a lanterna vermelha da moto ficasse menor que um vagalume e desaparecesse numa curva da estrada.

– Pronto, agora lascou-se tudo! – pensou o Chico a bordo do Talarico que continuava em velocidade de cruzeiro. – Se pelo menos eu tivesse um cigarro, a chama iluminava alguma coisa. – deduziu o Pamonha. – Ou se tivesse colocado um olho-de-gato na testa do burrico, o Tonhão poderia ver pelo retrovisor da moto. – continuou pensando enquanto o silêncio tomava conta da estrada.

E continuou andando pelo canto da estrada escura até que adormeceu sobre o pescoço do Talarico.

Lá por outras, minutos ou horas depois de ter pego no sono, o Chico Pamonha acordou porque o Talarico baixou a cabeça pra pastar uma grama verdinha junto a encosta de uma colina. Mas o burro não parou porque quisesse parar, e sim porque a estrada estava interditada uns 50 metros mais adiante.

O Chico se recompôs em cima do burro e, depois de esfregar os olhos, deu de cara com uma nave espacial no meio da estrada (por isso que o Talarico havia estancado e resolveu ficar pastando).

– Santo Deus! Que coisa do outro mundo é essa, minha Nossa Senhora? – falou em voz baixa de um jeito que só o Talarico ouviu.

Bem na frente dos dois havia uma nave com luzes brilhando em uma sucessão de cores: vermelho, azul, branco. Junto dela uns alienígenas procuravam alguma coisa no chão com seus capacetes e uniformes fluorescentes, até que um deles iluminou o que pareceu ser a moto do Tonhão encostada numa árvore.

– Jesus Cristo, é a moto do Tonhão, Talarico. – informou ao Talarico, o Chico, como se o burro estivesse muito interessado nesse detalhe.

E mais alguns segundos depois o Chico pode ver o Tonhão todo amarrado sendo colocado pra dentro da nave que abrira uma porta onde era possível ver outros alienígenas lá dentro debaixo de uma forte luz branca.

O Chico Pamonha pensou: – Estão abduzindo o Tonhão! – Estão ABDUZINDO o Tonhão! (palavra que ele recentemente havia aprendido numa revista sobre UFOs que viu na capital). Ele tinha ficado muito impressionado com todas as histórias que havia lido naquela revista e sabia que quando os ETs levavam algum humano da Terra, era esse nome que davam.

Chico ficou apavorado. Danou a picar o Talarico com os calcanhares na barriga, mas o enfadado burro não queria saber de largar sua grama enquanto a nave estivesse ocupando toda a largura da estrada. Chico desceu e tentou puxar o burrico pelo cabresto, mas o animal resistiu e, tão logo conseguiu se soltar, deu uma carreira para um outro monte de grama não muito distante. Chico correu atrás do Talarico e, com medo do burro ir embora e ele ficar com os ETs no meio daquela escuridão, montou no bicho e continuou tentando fazer com que ele andasse pra poderem socorrer o Tonhão.

A porta da nave se fechou com o Tonhão lá dentro e a nave saiu em disparada fazendo um barulho estranho e sumindo no horizonte. Foi só então que o Talarico pegou o rumo da estrada novamente e seguiu com um assustado Pamonha até São João do Quentão.

Chegando em casa, Chico contou pra mulher o que havia acontecido. Naquele idioma de bêbado que é um pouco parecido com português e com qualquer outro idioma do planeta, o Chico insistia com mulher que o Tonhão Capivara havia sido AB-DU-ZI-DO. A mulher, cansada de histórias, não deu confiança pra conversa do marido. E ele, cansado da viagem, acabou adormecendo no sofá.

No dia seguinte, o Chico foi procurar o Tonhão. Tocou, bateu palmas, gritou “ô de casa”, mas ninguém atendeu. Agora estava confirmado: o Tonhão havia sido abduzido pelos ETs na noite passada. Onde estaria agora? Orion? Andrômeda? Que coisa! O pensamento de ter perdido o amigo daquela forma era muito doloroso para o Chico. – Culpa da moto! – pensou. Se ele tivesse ido de burro, os dois teriam voltado juntos na mesma toada e um poderia defender o outro do ataque dos alienígenas. Ou culpa do Talarico, burro teimoso, que parou no meio da estrada e não avançou como um cavalo de guerra pra cima da nave dos invasores.

Três dias se passaram e eis que o Chico vê o Tonhão entrando em casa numa cadeira de rodas, todo enfaixado, sendo empurrado por um homem todo vestido de branco. Saiu correndo em direção ao amigo, gritando:

– Tonhão! Tonhão! Homem de Deus, ainda bem que eles te soltaram. Fizeram alguma coisa contigo? Onde te deixaram?

– Do que você tá falando Chico?  – perguntou o Tonhão que parecia ainda meio abobado com uma faixa na cabeça.

– Os ETs! Os ETs! Eu vi quando você foi ABDUZIDO no meio da estrada lá em Santa Dorotéia logo depois que a gente deixou a festa na fazenda do Dr. Osmar. Tá lembrado?

– Ih, Chico, só me lembro da festa. Depois disso não me lembro de mais nada. Mas que raio de ETs são esses? E o que é abduzido?

– Rapaz, a gente combinou de você ir na frente na sua motoca e eu ir te seguindo, mas não demorou muito e você pegou uma carreira na bicha que me deixou comendo poeira. Nem consegui entender como tava conseguindo ir tão rápido daquele jeito, bêbado como nós estávamos. Eu acabei pegando no sono em cima do lombo do Talarico e quando acordei vi uns ETs bem na minha frente, olhando a tua moto e te colocando pra dentro da nave deles. Pra que planeta te levaram?

– Chico, homi-rapaz, não sei pra que planeta me levaram não. Não lembro de nada.

– Já conferiu se não tem nenhuma cicatriz no teu corpo? Podem ter te colocado um chip ou, pior, vai ver que implantaram um leitor de pensamento na tua cabeça, daí estar enfaixada.

– Jesus Cristo, Chico! Como é que eu faço agora? Leitor de pensamentos? Nunca ouvi falar nisso.

– Pois é, amigo velho! Você deve estar sendo vigiado direto do espaço numa hora dessas. – falou o Chico Pamonha, o ufólogo, apontando pro céu.

– E eles devem estar fazendo isso como parte de um plano pra invadir São João do Quentão, né Chico? – continuou o Tonhão entrando de cabeça – enfaixada e tudo – na ficção delirante do Chico.

– Senhores, senhores! Mas que história é essa de nave espacial, chip sob a pele, leitor de pensamentos? – perguntou o homem de branco que empurrava a cadeira de rodas em que estava o Tonhão.

– E quem seria vosmecê, por gentileza? – rebateu o Chico Pamonha já com uma certa autoridade nesse momento.

– Eu sou o auxiliar de enfermagem do PS de Santa Dorotéia para onde esse senhor – apontou para o Tonhão Capivara – foi levado na noite de sábado depois de colidir, completamente embriagado, com uma árvore na estrada.  

– Quer dizer que os ETs levaram o Chico pro PS? – continuou o incrédulo Chico sendo acompanhado no espanto pelo Tonhão que a essa altura tinha os olhos maiores que a própria barriga.

– Que ETs, meu senhor? Não tem ET nenhum.

– E a nave espacial toda iluminada que eu vi no meio da estrada com os ETs procurando coisas pelo chão? – insistiu o Chico.

– Aquilo era uma ambulância, senhor. E os ETs na verdade eram os homens do grupo de resgate do Socorro Municipal que apareceram para socorrer o Sr. Capivara depois de um telefonema dado para o SAMU por alguém que viu o acidentado com a cara enfiada na árvore.

Nessa hora, tanto o Chico quanto o Tonhão caíram numa gargalhada que não conseguiam mais parar de tanto rir. Depois de se recompor, o Chico virou pro Tonhão e falou:

– Olha Tonhão! Esse povo acredita em cada coisa: Ambulância, Resgate, SAMU.

– É mesmo, Chico, meu velho! É mesmo!

E continuaram a gargalhar na cara do auxiliar de enfermagem que seguiu empurrando a cadeira de rodas do Tonhão sem entender tanta risada dos dois amigos.

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Uma resposta para Chico Pamonha, Tonhão Capivara e o Disco Voador

  1. Ajuricaba disse:

    Poxa burrico, acreditar em ET ainda vai, mas em SUS, só os seus personagens surtados mesmo rsrsrs

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