Abigail e Mustafá

Abigail é uma moça que mora no casarão no número 10 da Rua Aristides Bueno, uma rua lateral à praça principal (e única) do centro de São João do Quentão.  Com ela moram a mãe, Dona Regina Célia, e um gato persa de nome Mustafá. Abigail é moça nova, magra, alta, dedos longos como os de um poeta, com um cabelo negro e liso que teima em se soltar dos penteados que faz para tentar prendê-lo. Passa os dias na tarefa de cuidar da mãe, do gato e de seus bordados trabalhados junto à janela da sala. Pouco sai de casa, não tem amigos e vive a enterrar a juventude dos melhores anos da vida nas tramas dos fios durante o dia e nas letras dos livros antes de dormir. Carinho, conhece apenas os do Mustafá que se embola entre os seus pés ou pula em suas pernas quando ela está no sofá, pois, acreditem!, acha-se feia por causa do queixo retraído que em outros tempos presenteou um Noel Rosa que, ainda assim, amou e foi amado por tantas mulheres. Mas Abigail estava longe de ter a vida de um Noel na boemia de uma Vila Isabel. Seus dias eram daquela simplicidade e repetição no trato com a mãe, o bordado e o gato.

Mustafá –  o gato  –  é, ao contrário de Abigail, lindo e sabe disso. Dono de um pêlo cinza de impecável brilho, macio como o roçar das mãos em nuvens, e de olhos azuis cintilantes como estrelas que acabaram de nascer. Tem o carinho de Abigail, mas não suporta a indiferença de Dona Regina Célia que brada aos quatro cantos que detesta gatos. Fosse apenas por ela, talvez suportasse viver naquela casa, mas Mustafá também sente algo de torto nos carinhos que Abigail lhe faz nos pêlos quando ele se deita sobre as pernas dela no sofá. Por mais que todos saibam que gatos só pensam em si mesmos, em seu conforto e bem-estar, Mustafá sente que as mãos delicadas de Abigail desenham páginas de solidão em seus pêlos como fazem com as linhas dos bordados: a cabeça da moça nunca está ali, no trabalho ou no carinho que lhe faz. E isso é, para Mustafá, um amor vazio. Gatos entendem que na maioria das vezes os carinhos que recebem dos humanos são por saudades de tempos já vividos ou pela falta de tê-los vivido. E isso para o Mustafá, sabidamente consciente de que era lindo e desejado, é um despropósito. Sua vaidade não pode permitir que viva a sua vida desse jeito: sendo desprezado por Dona Regina Célia e acariciado por Abigail que deve pensar em outros dorsos e pêlos enquanto faz aquilo.

Foi aí que o Mustafá teve um plano, desses que só um gato que mora num casarão pode ter, pois os que moram nas ruas ou cortiços planejam coisas mais imediatas e uteis como, por exemplo, capturar um rato para o jantar. Todas as tardes, praticamente debaixo da janela da sala do casarão número 10, uma van para e dela descem várias crianças que moram em São João do Quentão, mas que estudam em Santa Dorotéia. Quem traz as crianças no fim das tardes é um pedreiro chamado Ribamar. O Mustafá sabe, pois sempre escuta as crianças gritando ao mesmo tempo “- Tchau, Tio Ribamar!”  naquele um minuto que parece durar uma hora na algazarra dos pequenos. O “Tio Ribamar” é um sujeito corpulento, mas não gordo, com algumas entradas nos cabelos e na barba que sempre traz mal aparada. Vermelho do calor, cinza do cimento, suando horrores, com as mangas das camisa sempre enroladas até a altura dos cotovelos e um relógio de aço que reflete o sol da tarde e que, no fim, é o que mais chama a atenção do Mustafá: aquela coleira que o Ribamar leva no braço e que brilha como o sol das tardes de São João do Quentão.

Mustafá pensou que poderia conseguir muita coisa do Ribamar. Primeiro, ter acesso ao relógio e entender como ele guarda aquela porção de Sol dentro dele. Segundo, seria por meio de Ribamar que Mustafá sairia do velho casarão, escondido do mundo, para morar e brincar com o seu pedaço de Sol. Bastava que Ribamar se interessasse por Abigail, que os dois se casassem e que fossem morar em uma nova casa construída pelo próprio Ribamar para a sua nova família. Estava tudo muito claro na cabeça do Mustafá, mas para que essas coisas acontecessem, era necessário um plano que o gato não tardou em desenhar em mais uma noite em que Abigail se dedicou a traçar corações com setas em seu pêlo macio.

Na manhã seguinte, a mesma rotina: Dona Regina Célia reclamando do gato, Abigail cuidando de seus bordados, Mustafá brincando com os carretéis das linhas e tendo, vez ou outra, um coração desenhado nas costas pela moça. Até que se ouve a van estacionando e as crianças naquela gritaria de “- Tchau, Tio Ribamar!” pra cá e pra lá. Mustafá, que cochilava nessa hora, deu um salto da almofada e foi bater no beiral da janela para não deixar o Ribamar ir embora naquela bendita van. Abigail se assustou com a carreira inesperada do bicho e, temendo que tivesse caído na rua, correu à sacada para ver como estava o bichano.  Ao afastar a cortininha leve de renda que ela mesma fez, deu de cara com o Mustafá se roçando no braço do relógio do Ribamar que, a principio, nem notou a presença da jovem na janela.

– Oi, moça! Não lhe vi aí, desculpe! –  disse o Ribamar para uma Abigail que, voltando meio passo, colocou-se novamente sob o véu da cortina de renda.

– Pensei que o meu gato tivesse caído da sacada. – disse Abigail, observando como Mustafá e Ribamar se deram bem.

O gato praticamente se deitara esparramado no braço do pedreiro e estava lá a olhar as horas no relógio que trazia um tanto do Sol que ele tanto amava. Com a outra mão, Ribamar arranhava as costas do felino até a nuca, enquanto Abigail observava aquele carinho mais vigoroso sem se dar conta de que Ribamar continuava falando com ela como quem puxa um assunto sobre o nada. Ele percebendo que a moça não lhe dava atenção, enrolou o gato num abraço e o devolveu por cima da sacada para uma Abigail que agora fitava discretamente os músculos grandes comprimidos nas mangas enroladas da camisa colada de suor e pó de cimento.

Vendo o interesse nos olhos e desenhos que a dona lhe fez nas costas naquela noite, Mustafá percebeu que o plano dera resultado. Na tarde do dia seguinte, tão logo o primeiro moleque barulhento gritou “- Tchau, Tio Ribamar!”, lá foi o Mustafá para  a sacada da janela conversar com o seu novo amigo. Abigail, dessa vez, não correu e ficou ouvindo o Ribamar falando pro gato “- Que bichano lindo!” enquanto o Mustafá se derretia de carinhos, miados baixos e admiração pelo relógio do homem. Abigail se aproximou novamente da cortina e viu Ribamar e Mustafá naqueles carinhos todos que, estranhou,  ela nunca viu o gato dedicar a ninguém. Tomou coragem e um passo adiante apareceu na janela.

– Boa tarde! – disse Abigail ajeitando uma ponta do cabelo que lhe pendia pela lateral do rosto, terminando por repousar a mão no queixo que tanto a incomodava para disfarçar o ar de poeta da Vila.

– Oi, boa tarde, moça! Desculpe estar aqui brincando com o seu gato, mas parece que ele também gostou de mim. – respondeu Ribamar, enquanto roçava a barriga do gato com as mãos pesadas que faziam a alegria de Mustafá e despertavam desejos secretos numa Abigail que olhava com uma  certa ponta de inveja o espreguiçar de seu gato no braço forte do homem.

– Admira-me essa amizade dele pelo senhor. – disse Abigail. – Esse danado não vai com ninguém além de mim, nem mesmo com minha mãe. – completou a moça como se por acaso Dona Regina Célia fizesse alguma questão de fazer carinhos em gatos.

– Não lhe incomoda, então? – perguntou ele.

– De forma alguma. E nesse horário é até bom para que eu também estique as pernas, deixe um pouco do bordado e venha pegar um Sol de fim de tarde na janela.  – respondeu ela sem tirar os olhos das mãos de Ribamar esfregando o gato, dando a entender que faria aquilo todos os dias a partir de então.

E assim ela fez nos dias que se seguiram. Toda vez que a van parava e a primeira criança gritava “- Tchau, Tio Ribamar”, corriam Mustafá e Abigail para a janela. Depois de alguns dias, Abigail já não esperava a van chegar; ficava esperando na janela com Mustafá nos braços. E os dois ficavam lá conversando durante 15 minutos, depois meia hora, uma hora, até que o Sol se apagasse em seu relógio e Mustafá perdesse o interesse pelo objeto. Abigail mostrou os trabalhos que fazia com seus bordados, comentou os livros que lia, emprestou alguns para Ribamar que nem os havia pedido empresado. Ele falou do trabalho na construção civil, das casas populares que construía em outros municípios e de como aproveitava a van para ajudar com o transporte das crianças para a escola já que, deixassem por conta das famílias sem recursos e dos governos sem interesse, a evasão escolar seria ainda maior. Abigail se encantava ainda mais com Ribamar, com o estilo rústico, másculo, com os músculos pulsando sob a camisa e até o pó de cimento que a incomodava no início, agora parecia pó de ouro pela generosidade do pedreiro que também se fazia de motorista só pra ver as crianças na escola.

Abigail ia se deitar à noite e, na cama, desenhava nas costas de Mustafá corações com seu nome e o de Ribamar. O gato sentia que os carinhos que nunca foram pra ele, ao menos agora tinham um nome, um dono. E ele, afinal,  gostava do relógio de Ribamar que tinha o poder de guardar o Sol. Durante quase um mês a rotina de Abigail, Mustafá e Ribamar se repetiu na sacada daquela janela. Dona Regina Célia fazia gosto de que a moça arrumasse um marido e saísse de casa levando o bendito gato. Chegou a convidar Ribamar para um jantar, mas o homem disse não poder ficar até tarde, pois ainda tinha de passar na casa da mãe que andava meio adoentada.  E tudo que Ribamar dizia ou fazia era motivo para aumentarem a admiração e a paixão por parte da Abigail.

Chegou um dia que deu cinco horas da tarde e só Abigail foi pra janela ver a van chegar buzinando, rir da algazarra das crianças se despedindo do “Tio Ribamar” e ficar conversando com ele até o Sol se pôr por detrás da torre da Igreja da Matriz. Mustafá já dava como cumprida a missão de aproximar os dois e agora ficava às voltas com seus carretéis, fazendo planos para a vida nova na casa nova com Abigail e Ribamar que sempre perguntava por ele quando se encostava na janela para conversar com a moça que agora já não escondia mais o queixo com as mãos e até arriscava a soltar os cabelos finos e negros assim que corria para a janela. Já se achava mais bela, mais interessante, mais interessada no mundo além dos caminhos dos fios que bordava, além da cortina e da janela da própria casa de onde não saía pra quase nada.

E no dia seguinte a mesma rotina se repetia: Abigail na janela por volta já das três da tarde, Mustafá brincando ou dormindo no meio das linhas e das almofadas e Ribamar chegando com a van repleta de gargalhadas e sempre perguntando pelo gato ao se aproximar da janela. Até que um dia a van não apareceu as cinco horas. Abigail ficou preocupada. Teria acontecido algum acidente na estrada? E as crianças?, meu Deus! E Ribamar? Como estaria? Seu amor perdido num acidente horrível na estrada entre São João do Quentão e Santa Dorotéia? Não queria imaginar, mas ao mesmo tempo eram as únicas cenas que conseguia ver até de olhos fechados. Correu para buscar Mustafá que dormia entre as almofadas do sofá, voltou à janela e lhe fazia carinhos que escreviam linhas de preocupação no pêlo magnífico do gato persa que, não poderia ser diferente, leu e também ficou tenso com a possibilidade de ter acontecido alguma coisa com Ribamar e seu relógio.

Passava das sete quando Abigail viu a van de Ribamar encostando debaixo da janela. “- Graças a Deus!” – disse ela. Ele se apressou em tranquilizá-la. Não fora trabalhar naquele dia. Ela reparou que ele estava diferente, todo arrumado, cabelo molhado e penteado, barba feita, blusa nova sem sinal de cimento, calça alinhada e passada com vinco, sapatos brilhando mais do que as pedras da rua. Ele disse que tinha algo muito sério a lhe propor. Ela sentindo um arrepio na alma, na nuca e uma fraqueza nas pernas, agarrou-se firme com o Mustafá nos braços. Ele lhe pediria em casamento. Onde estava Dona Regina Célia? Teria de chamá-la na cozinha, mas não conseguia mover um só musculo de tanto que ficara debruçada naquela janela a tarde inteira.

Ribamar começou dando voltas para falar o que realmente queria. Falou dos dias vividos entre as muitas obras que só lhe davam alegria porque sabia que as casas seriam o único bem de muita gente de bem que não tinha nem onde cair morta. Falou da alegria de transportar as crianças da escola para casa todos os dias e de como isso foi bom porque ao parar ali, em frente à casa número 10 da Rua Aristides Bueno, pode conhecer a Abigail. A moça quase não se controlava de tanta alegria e desenhava delicadas flores nos pêlos do Mustafá que também se regozijava com aquilo, afinal, a ideia de aproximar os dois havia sido dele.

Ribamar continuava falando, mas parecia que nem Abigail nem Mustafá se davam conta do que ele dizia.  Ela fazendo planos para o casório e ele para a casa nova e os brinquedos que teria. Até que Ribamar se virou para Abigail e perguntou:

– Abigail, nem sei se tenho o direito de fazer isso, mas posso lhe pedir uma coisa?

– Claro, Ribamar! – respondeu ela com um sorriso imenso já com o pensamento no vestido de noiva.

– Você me venderia o Mustafá? – perguntou ele para espanto da moça e do gato. – Minha mãe está muito doente, acabei de vir do hospital e ela diz sentir falta de meu pai já falecido, de dois irmãos meus que sumiram no mundo e de um gato persa, muito parecido com o Mustafá, que lhe consolava nos momentos em que a solidão descia pesada com o chegar da madrugada.

– Claro, Ribamar! – respondeu Abigail com uma tristeza estampada no rosto e segurando firme o Mustafá que nessa hora pensou em correr para o fundo da casa.

– Eu lhe dou o gato, não é preciso me pagar por ele. Em nome de nossa “amizade” e com vistas à melhora de sua mãe. – disse ela, e dizendo isso, passou o Mustafá aos braços do Ribamar e trancou a janela.

Ribamar ainda continuou por cerca de uma semana parando a van debaixo da janela, agora sempre trancada, do casarão no número 10 da Rua Aristides Bueno. Depois disso mudou o ponto para outra rua junto à praça, pois acreditava que havia feito alguma coisa que incomodara muito sua amiga Abigail. Ela, por sua vez, foi fazer seus bordados no quarto dos fundos, sem janela para a rua, substituindo os carinhos que fazia no gato por lindas tramas que pareciam obras de arte de tanta beleza e tristeza juntas. Dona Regina Célia nem se preocupou em saber o que havia acontecido entre a filha e o pedreiro. Bom mesmo é que o gato Mustafá, dado ou vendido, não morava mais com elas, e sim num quarto apertado de um cortiço em Doutor Altino – um bairro da periferia – sem ver a luz do dia junto com a Dona Geralda, mãe do Ribamar, que passa praticamente todas as noites desenhando saudades infinitas do marido e dos filhos nas costas do lindo gato persa que um dia chegou a pensar que poderia ser o dono do Sol.

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