Caramuru

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Todos conhecem a história de Diogo Álvares Correia – o Caramuru –,  mas o que poucos sabem realmente é de onde veio a fama do português. Diogo ficou conhecido por um suposto tiro de arma de fogo que assustou os índios e que lhe rendeu o apelido de “filho do trovão”, mas que não tem nenhuma relação com o apelido Caramuru, que em tupi significa “lampreia”, uma espécie de peixe,  uma vez que Diogo teria sido encontrado pelos índios na praia em meio a algas e pedras. Mas o que a história não conta, eu reparo. Sim!, o que passo a narrar agora vem sendo contado na minha família desde aqueles tempos. O fato é que Diogo era sujeito mulherengo e, como acontece até hoje, sendo turista europeu,  encantou-se com a cor e a beleza da mulher brasileira que, mesmo antes de o país se chamar Brasil, já se vestia com pouca roupa. Mas o Diogo, guloso, caiu na besteira de se envolver com as duas filhas do chefe Taparica que; ao saber disso,  já cansado de trocar espelhinhos portugueses por ouro de tolo Tupinambá, resolveu dar uma lição em nosso amigo Caramuru.

Conta a história que certo dia Diogo estava na farra com as duas irmãs quando um grupo de guerreiros tentou surpreender o sujeito se divertindo na rede. Alertado pelas moças, Caramuru montou num burrico que estava amarrado do lado da cabana onde o moço se fartava das nossas frutas tropicais, interrompendo a refeição do animal que comia farinha de mandioca com pimentão recheado. Diogo pegou o rumo da praia com os índios correndo no seu encalço, mas o enfadado do burro, nada acostumado àquela correria toda depois do almoço, começou a perder velocidade e, cansado, acabou sendo alcançado junto a um paredão de pedra onde havia uma fogueira, ainda em brasas, deixada por alguma outra tribo vizinha. Diogo, pressionado pelos índios que lhe apontavam lanças e flechas, colocou o burro na sua frente, ficando com a encosta do morro às suas costas.  O chefe Taparica falava que Diogo havia traído a sua confiança e que só queria saber de ficar de comilança com as suas filhas. Foi então que o burro, bicho pouco entendedor das safadezas dos homens, mas conhecedor das urgências de seus próprios vícios, começou a sentir o resultado daquela corrida alucinada nas tripas que se reviravam com o pimentão e a farinha de mandioca. Fosse só por isso, talvez passasse, mas os índios não paravam de avançar com setas em punho na direção de seu focinho, enquanto o Caramuru tentava se esconder atrás dele. E com aquela pressão toda (vindo de dentro e de fora) o pobre do burro não aguentou e largou um pum digno de um imperador empanzinado que, além de ter o seu som amplificado como um trovão no paredão de pedra, pegou rastro por cima das brasas da fogueira levantando uma coluna de fogo que pôde ser vista lá da aldeia. Nessa hora e com espanto, os índios Tupinambás gritaram em uníssono: PONGA!, que em tupi-guarani quer dizer “som retumbante”, batizando assim o burro flatulento.

Depois disso, os guerreiros até esqueceram do sacana do Diogo para se dedicarem a cobrir de mimos o Ponga na intenção de usá-lo como arma de combate (o primeiro tanque de guerra genuinamente brasileiro). Já o Caramuru, para não ficar por baixo nem com fama de covarde, mas com medo das ameaças do chefe Taparica, tratou logo de casar com Paraguaçu e de levá-la para a Europa onde cuidou rapidamente de inventar a história do tiro como conhecemos até hoje.

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2 respostas para Caramuru

  1. Ully Martínez disse:

    Filonéscio, que alegria receber suas crônicas novamente, me perguntei tempos atrás, onde estará o burrico mais inteligente da rede social ? Grata surpresa ! Bem-vindo !

  2. Amigo Filonéscio. Que bom tê-lo de volta e sempre nos brindando com a verdadeira versão dos fatos. Um abraço.

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