Rodyneison: O Urubu Suspeito

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Quando o Delegado Jorjão chegou na clareira aberta na mata, a confusão já estava formada. De um lado, os cães policiais que fizeram a captura do suspeito de furtar a Dona Hermengarda – uma capivara que roía as unhas de nervosismo. Do outro, a turma que creditava  à prisão do Rodyneison – o urubu suspeito – mais uma demonstração clara (ops!!) do racismo velado que ainda existe nas fazendas do interior desse Brasilzão. 

– Mas ele será levado para delegacia apenas para averiguação. – disse o Delegado Jorjão ajeitando os óculos fundo-de-garrafa na tentativa de identificar alguém na multidão que fosse responsável pela manifestação.

– Isso é um absurdo, Doutor. Estão prendendo o Rodyneison só porque ele é negro.  –  bradou uma saíra-sete-cores, conhecida ativista de outras manifestações progressistas.

– Senhorita, o cidadão em questão só foi detido porque a Dona Hermengarda fez, além do retrato-falado, o reconhecimento no DP de Santa Dorotéia onde, além desse suspeito de lhe furtar a bolsa, estavam também um periquito australiano e um canário belga. – esclareceu o Delegado Jorjão.

– Mas, ora, se por acaso teriam coragem de prender como suspeitos os dois estrangeiros.  – resmungou um tatu-bola abraçado a um boneco de pelúcia do Fuleco.

Rodyneison seguia cantarolando uma canção do Bob Marley alheio à confusão que se formara em torno de sua pessoa. Fato é que dificilmente a vítima poderia confundir um urubu com cabelo rastafári com dois coxinhas importados que de tão certinhos davam ainda mais raiva nos manifestantes que pediam a liberação do suposto assaltante que só sabia repetir com entusiasmo:  “Is this love, is this love, is this love Is this love that I’m feelling’?”.

– RACISTAS! RACISTAS! RACISTAS!começou a puxar o coro a saíra-sete-cores do início da história. No que foi seguida por mais um grupo que incluía um anu- preto, três corvos, oito melros e um gato preto da Fazenda Poços de Caldas que apareceu ali só pra ver se faturava uma refeição “na faixa”.

O Delegado Jorjão, temendo pela integridade da vítima do assalto no meio daquele tumulto, resolveu tentar dispersar a multidão autorizando que seus cães de guarda fizessem uso de bombas de efeito moral e de gás lacrimogênio. A cachorrada era só alegria jogando bomba na bicharada que, de longe, agora gritava: 

– FASCISTAS! FASCISTAS! FASCISTAS!, enquanto um tamanduá com uma bandeira vermelha gritava sozinho, mas a plenos pulmões: – GOLPISTAS! GOLPISTAS! GOLPISTAS!  

A essa altura do campeonato, a Dona Hermengarda já estava chamando urubu de “meu louro”, dizendo que achava que o suspeito era mais baixo, mais magro, mais feio, mamífero ao invés de ave. – Estava escuro! Não vi direito! – disse ela, chorando. Enfim, a pressão foi tanta que a senhora acabou desmaiando e foi um corre-corre pra trazer água com açúcar pra reanimar a pobre da capivara.

O Delegado Jorjão, cumprindo com sua função, levou foi todo mundo pra delegacia e, depois que a Dona Hermengarda acordou, por falta de certeza por parte da vítima e porque o Rodyneison tinha um álibi para o horário da ocorrência (o Calixto – o urubu prolixo e pró-lixo da fazenda – confirmou estar com ele num reggae no bar maranhense de Simbora Daqui) –  foi obrigado a liberar o agora ex-suposto meliante que, levado nos braços da multidão que o aguardava do lado de fora, entoou mais uma do Bob:   

Won’t you help to sing

Another song of freedom?

‘Cause all I ever have

Redemption songs

Redemption songs

 

Já à noite, no bar do Firmino, bebiam e comemoravam juntos o Rodyneison, o Calixto e o Galileu – o peru ateu – , quando entrou correndo, ou melhor, voando, o Dirceu – o morcego comunista – com uma bolsa grená, brega, com detalhes dourados um tanto desgastados e  cheia de vegetação aquática grudada na alça. Os três amigos olharam para aquilo e como já estavam há mais de cinco horas bebendo, caíram numa estrondosa gargalhada, sem se darem conta do que estavam presenciando.

– E aí, Dirceu, tá rodando bolsinha na lagoa pra completar a renda? – perguntou o Calixto, rolando de rir.

– Claro que não! É da minha mãe que esqueceu em casa quando foi pro culto. – respondeu o morcego negro como uma noite sem lua, já pegando o rumo da primeira janela aberta antes que viessem mais perguntas dos três bêbados.

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