NÃO VAI TER GOLFE!

Tarde do último sábado e alguns manifestantes – cinco – concentravam-se em frente à  porteira da fazenda Milho Milhó do cumpadre Apolinário Mendonça. Entre eles a Zuleica, uma saíra azul (está mais pra vermelha), conhecida agitadora da região. Acompanhavam o protesto um macaco-prego, um porco, um furão e o Dirceu, o morcego comunista aqui da fazenda.

– NÃO PASSARÃO! NÃO PASSARÃO! – bradavam os manifestantes impedindo a entrada da equipe de marmotas contratada para fazer a reforma do campo de golfe da fazenda.

O neto de Nhô Apolinário resolveu, para agradar o avô, fazer a reforma do antigo campo de golfe da fazenda que era muito badalado lá pelos idos da década de 50. Depois vieram momentos dificéis na fazenda e o campo ficou abondanado, depois foi usado para plantio de algumas culturas que não vingaram por não se adaptarem ao solo. Por fim, foi abondanada novamente lá por meados da década de 90. Mas agora, o neto quer dar essa alegria pro avô e pretende fazer reviver o gramado verdinho, as bandeirinhas, os carrinhos… tudo conforme se via há quase 70 anos.

– NÃO PASSARÃO! NÃO PASSARÃO! – insistiam no brado os manifestantes obstruindo a porteira.

– Mas senhora, fomos contratados para a obra do campo de golfe. – disse um dos engenheiros marmotas ajeitando os óculos e apresentando o papel com a autorização para a Zuleica.

– NÃO ME INTERESSA! – disse a Zuleica com ódio, tomando o papel das mãos do engenheiro marmota e rasgando-o para o delírio dos outros manifestantes.

– NÃO VAI TER GOLFE! NÃO VAI TER GOLFE! – gritavam e pulavam (exceto uma cobra que apareceu e se juntou ao grupo só pela baderna) excitados.

– Esse campo de golfe deverá seeeerr desapropriado e fazeeer paaaarte de um novo acampamento campesino para atendeeeer os membros de grupos sociais da região. –  disse o Dirceu, o morcego comumista.

A gritaria começou a chamar a atenção de outros bichos da fazenda e dos que passavam pela região. Em pouco tempo havia algumas dezenas de bichos na frente da porteira tentando entender o que acontecia.

– NÃO VAI TER GOLFE! NÃO VAI TER GOLFE! – continuavam aos berros a Zuleica, o macaco-prego, o porco, o furão, o Dirceu, a cobra e agora mais 30 patos que chegaram num ônibus fretado com um vale-refeição debaixo das asas e a  promessa de ganharem um lago na fazenda com direito a pedalinho e tudo.

– NÃO VAI TER GOLFE!

– NÃO VEI TER GOLFE!

– NÃO VAI TER GOLFE!

(agora num tom mais fanho por causa da quantidade de patos na frente da porteira)

Julião Bacamarte, o galo que faz a segurança da fazenda, largou seu posto pra lá e foi ligar pra Polícia que apareceu com duas viaturas e e dez cães pastores que ficaram a uma certa distancia observando o desenrolar do protesto.

– FASCISTAS! FASCISTAS! – gritavam os manifestantes ao verem a chegada dos policiais

Je suis, o pavão daqui da fazenda, resolveu conversar com os manifestantes argumentando que a reforma do campo de golfe traria mais turistas, geraria empregos para a população que mora nas redondezas da fazenda, mas foi rapidamente interrompido pela Zuleica que, enlouquecida, dizia que os bichos da região não precisavam de empregos para serem escravos de oligarcas de cartola e fraque que fumam charutos enquanto tatus se empenham em carregar pesadas bolsas de tacos de golfe mesmo sem terem altura para isso.

– NÃO VAI TER GOLFE! NÃO VAI TER GOLFE!

Como a situação não se resolvia, o Delegado Jorjão – um tatu – chegou junto dos manifestantes e disse que eles não poderiam impedir a entrada dos engenheiros e funcionários da empreiteira por se tratar de uma propriedade privada.

– Entraremos com um HC preventivo. – disse a Zuleica.

– Pra quê? – perguntou o delegado.

– Você vai mandar seus cães adestrados nos prenderem? Pode me algemar. – disse a Zuleica esticando as asas em direção ao Delegado Jorjão.

– Claro que não, minha filha! Isso não será necessário. – disse o Delegado Jorjão, acenando com a cabeça para o Anibal – o cão comandante do Choque Canino.

Em instantes era uma nuvem de spray de pimenta que ninguém conseguia enxergar mais nada. Foi porrada de militante em militante, pena de pato voando pra todo lado e até os engenheiros marmotas apanharam no meio da confusão.

Pra completar, o neto de Nhô Apolinário Mendonça desistiu da ideia do campo de golfe e resolveu criar no local um clube de tiro ao pato. Mas agora a Zuleica e o Dirceu não apareceram para reclamar. E os patos mudaram de partido.

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Uma resposta para NÃO VAI TER GOLFE!

  1. Gelmir Reche disse:

    Prezado Filonéscio,
    fazia muito tempo que não tinha notícias do amigo. Bem vindo de volta.
    O texto, como sempre, primoroso. Parabéns.
    Gelmir Reche

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