A Votação

destaquelhama

 

– Pela ordem, Senhor Presidente! Pela ordem! – bradou o Azambuja – a coruja – na tentativa de apaziguar os ânimos dos bichos na reunião da fazenda.

– Já estamos aqui há mais de 8 horas e nem sinal de um encaminhamento para a votação. – disse o Galileu – o peru ateu comendo um sanduíche velho que encontrou no fundo da mochila.

– O procedimento já foi debatido à exaustão e não há mais o que ser dito, falado, colocado e tudo o mais é tentativa de tergiversar quanto à questão principal de nossa pauta. – disse o Muçarela – o rato pobre que presidia a sessão naquela tarde.

E continuou:

– Os bichos serão chamados por ordem de setor que ocupam na fazenda, começando do Norte para o Sul e vice-versa. Começando, portanto, dos animais que vivem junto à porteira da fazenda, passando depois para os que estão no pomar, depois novamente ao Norte com os que residem nas proximidades do açude da entrada principal, retornando ao Sul com a horta e depois…

– Senhor presidente, questão de ordem. – tomou o microfone a Jandira Saracura, interrompendo a fala do Muçarela.

– Só um minuto, Senhora Jandira. Deixe-me terminar de detalhar como será a ordem da votação, por favor.

– Minha questão de ordem é justamente sobre essa ordem. Não concordamos que os bichos que vivem perto do açude devam votar antes dos que estão no celeiro, uma vez que a latitude do celeiro vem antes da do açude. – disse a Jandira com um GPS preso à canela fina.

– A ordem também deveria ser de quem vive mais rente ao solo pra cima. –  emendou o Min-Ho-Oko, a minhoca maoísta.

– Não! Assim não! Já estão esculhambando a parada. – reclamou o Calixto, o urubu prolixo e pró-lixo com o apoio do Batista, o pardal capitalista.

– É justo! É Justo! Temos dificuldades de acesso ao microfone do plenário. – falou dessa vez um tatu-bola com problemas de bico-de-papagaio que poderia votar primeiro em função do atestado médico, mas quis colocar mais lenha na fogueira.

– Ordem! Ordem! PLÉM PLÉM PLÉM… PLÉM PLÉM PLÉM. – tentava a todo custo com o auxílio da campainha, o Muçarela, que presidia a sessão já totalmente fora de controle.

Desse momento em diante já havia conflito entre aves e porcos sobre quem votaria primeiro. Duas cabras discutiam com dois marrecos com um mapa da fazenda aberto medindo quem estava mais próximo da próxima latitude com direito a voto. Os marrecos argumentavam que também frequentam o lago e dessa forma deveriam votar primeiro. Os peixes reclamavam porque a altitude deveria ser medida a partir de onde se encontravam e a situação parecia sem solução, pois não havia microfones à prova d’água.

Sem outra alternativa, o Muçarela teve de solicitar a intervenção da Polícia Legislativa. Cinco capivaras armadas com bastões táticos e spray de gengibre saíram distribuindo porrada em todo mundo e rapidamente a ordem foi restabelecida.

O Muçarela decidiu fazer uma votação rápida para saber se todos aceitavam que a ordem de votação fosse simplesmente por ordem alfabética para simplificar todo aquele processo de latitude, longitude, cartografia, astrologia, enfim! Para surpresa da mesa, a maioria dos votos foi favorável a que o rito da votação sobre a matéria em questão fosse por ordem alfabética.

Ânimos mais apaziguados, Tião Paçoca, um pombo vesgo que era o primeiro secretário passa ao segundo secretário, Olímpio Wagner, um sabiá laranjeira que se apresenta no Karaokê de Santa Dorotéia, a lista com os nomes dos bichos com direito a voto já em ordem alfabética.

Olímpio Wagner, com sua voz melodiosa, chama:

– Dr. Aarão Amado, por favor pode se dirigir ao microfone.

O Dr. Aarão Amado era uma lhama recém-chegada do Peru que foi bater lá na fazenda por causa do programa Mais Médicos.

O velho doutor foi se chegando com dificuldades até o púlpito pedindo licença a dezenas de outros bichos que se amontoavam na passagem,  posicionou-se diante do microfone, ajustou a altura do equipamento, deu dois toques com o casco direito para testar o sistema de som da casa, tossiu algumas vezes num lenço finamente bordado pela esposa e começou seu preâmbulo:

– Povo guerreiro! Povo São João Esquentadense! Pela minha família! Por Deus! Por minha tia Esmeralda que me criou numa fazenda entre Ayacucho e Cusco…

Nesse exato momento, ao pronunciar suas origens peruanas, o Dr. Aarão Amado desferiu uma chuva de cuspe em pelo menos uns oito parlamentares que se encontravam à frente do púlpito. A porrada começou a rolar e não havia campainha nem Polícia Legislativa que conseguisse separar a bicharada. Depois de muito tempo, muitas penas e pelos voando pelo salão é que a ordem foi novamente restabelecida.

Metade dos bichos foi parar na Delegacia pra, cada um ao seu modo, explicar o que aconteceu ao Delegado Jorjão. A outra metade ficou a madrugada toda no hospital à espera de um leito vago uma vez que o problema da saúde do município era o tema da bendita votação.

 

 

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