Os Donos da Terra

A situação ainda parecia sob controle quando o Delegado Jorjão – um tatu de óculos de fundo de garrafa – chegou ao local. De um lado, um grupo de pássaros e aves liderados por uma saíra azul chamada Zuleica. Do outro, um grupo de porcos-do-mato comandados por Tião Javali, famoso agitador da região. E no meio dos dois, sem entender absolutamente nada,  o Peteleco – o burrico blasé e esquelético de Nhô Aristides Torres  – que com o arado preso as ancas para iniciar o trabalho no campo, viu-se impedido pela manifestação dos dois grupos.

– Não vamos deixar passar! – bradou o Tião Javali se colocando à frente do Peteleco.

– Isso mesmo! Go home imperialistas do agronegócio! – acrescentou a Zuleica encarando o pobre do Peteleco que estava ali só pra cumprir com as suas obrigações de empregado da fazenda.

O Delegado Jorjão, ajeitando e tirando a terra dos pesados óculos, quis entender o motivo do litígio.

– Dr. Delegado Jorjão, estamos aqui para impedir que o Peteleco inicie o arado desse punhado de terra da Fazenda Pé-de-Vento. – disse o Tião Javali com um palito de dentes no canto da boca.

– E por que motivo o cidadão quer impedir o serviço desse burro? – perguntou o Delegado Jorjão para uma moita que tinha a silhueta do porco Tião, pois não enxergava direito mesmo com as lunetas que levava na cara.

– Pois então, Doutor Jorjão – disse o Tião agarrando o braço do Delegado Jorjão.  – A questão é que o dono desse aí  (disse com desdém apontando com os beiços para o Peteleco) quer arar mais esse tanto de terra para plantar milho, batata, beterraba e sabe-se mais lá o quê que há de sementes nos alforges desse burro magrelo.  E nós não vamos permitir essa invasão!

– É isso mesmo! – tornou a repetir a Zuleica, enfiando a ponta da asa na cara do Peteleco que, sem se importar com o discurso, pastava calmamente no meio do tumulto.

– “Invasão”? Mas de que invasão o senhor está falando? – questionou o Delegado Jorjão à fala do Tião Javali, falando com um toco de árvore que tinha uma silhueta também muito parecida com a do porco agitador. E completou: – As terras não são de Nhô Aristides? E antes de serem dele, não eram de seu pai que as herdou de seu avô? Por que ele não poderia plantar o que quisesse aqui até onde as cercas sejam suas?

– Poderia, Doutor, não fosse o fato de essas terras antes de pertencerem à família de Nhô Aristides, terem sido sempre dos porcos-do-mato que andavam por essas regiões fugindo dos índios. Na verdade, o que estamos exigindo em reparação aos anos de exploração de nossa terra, é que esse punhado de terra que restou seja devolvido aos de nossa raça.

– É isso mesmo! – gritou com entusiasmo a Zuleica, abaixando-se para olhar bem na cara do Peteleco que continuava pastando alheio àquilo tudo.

– Maaaaaas, só um segundo. – se tocou a Zuleica da besteira que fazia ao ser alertada por um tucano meio depenado.  – Essas terras na verdade sempre foram dos pássaros e aves que enfeitam o céu com as suas cores e enchem o ar com a música de suas gargantas.  Se há alguém que mereça receber terras em reparação aos danos provocados pela família Torres, somos nós, as aves.

– É isso mesmo! – gritaram em uníssono biquinhos-de-lacre, sabiás, coleirinhos, curiós, tangarazinhos, uma saracura-matraca, uma maria-preta-de-penacho e pelo menos uns três ratos que usavam bicos postiços para se passarem por pássaros.

– Pela ordem, Delegado. Pela ordem! – Disse o Tião, interrompendo com brevidade  a salva de asas, com medo de que as aves levassem as terras no grito, ou melhor, no pio.

O Delegado Jorjão, que agora interrogava uma pedra pensando ser  alguém do grupo dos porcos, nem se deu conta da confusão que estava para começar bem debaixo de seu focinho.

– E por que motivo vocês haveriam de querer terras de volta? Terras que nunca foram de vocês, diga-se de passagem. Ou já não diz a música que “a Praça Castro Alves é do povo como o céu é do azulão”? Vocês já têm todo o céu pra vocês, por que fazer questão de um pedaço de chão? – Disse o Tião Javali para delírio do seu grupo de manifestantes.

– Alto lá, Senhor Tião! Primeiro que a música falava de avião, e não de azulão, um dos nossos. E depois, tirando os insetos que também voam, nós pássaros não temos como comer nem beber outra coisa no ar, pois nosso sustento também vem das coisas que nascem e correm na terra. – Respondeu à altura, a Zuleica, para delírio dos pássaros, dos ratos e, agora, de três urubus que apareceram com grandes expectativas, senão de ganho de terras, pelo menos de um defunto fresco de qualquer lado da revolução.

– Isso foi um sofisma? Ora se a senhora, Dona Zuleica, não é uma grande farsante, querendo com a sua retórica bem arranjada pela sonoridade do seu canto, confundir toda essa massa iletrada, incluindo o Delegado Jorjão e seus policiais. – Disse o Tião com a pata em riste na cara da Zuleica, sem se dar conta de que acabara de ofender também a autoridade com a sua frase mal colocada.

– E o senhor anda a querer terras pra quê, Tião Javali? Já não há lama suficiente nesse país para todos os porcos da sua laia? Ou faz isso que é pra ver caber todas as antas e capivaras que estão aí fantasiadas de porcos entre os seus?

– É isso mesmo! – gritaram aos pássaros,  os ratos e os três urubus.

– E a senhora que leva em sua comitiva ratos e cobras que se cobrem de penas e disfarçam a fuça com bicos postiços? Faça-os voar que abrimos mão das terras de nossos ancestrais.

– É isso mesmo! – gritaram as antas, as capivaras e novamente os três urubus que, afinal de contas, não tinham lado na disputa pela terra. Independente de quem a levasse, desde que houvesse pelo menos um morto, para eles era lucro garantido e sem nenhum esforço.

– Que ancestrais o quê, seu porco fedorento? Onde um porco mete as patas, só brota sujeira. Deixasse por sua conta, um jardim florido se transformaria em chiqueiro em menos de um dia. Vocês só têm utilidade depois de limpos, assados e servidos sobre a mesa.

Tião Javali ouviu o que disse a Zuleica, e não gostou. Raspou a pata direita num sulco de terra já aberto pelo Peteleco e, bufando, partiu pra cima da saíra abusada que, voando ligeira, saiu da frente e voltou-se sobre ele desferindo bicadas certeiras em suas orelhas. A partir daí foi um tumulto generalizado entre os porcos e os pássaros. Os ratos, as capivaras, as antas e as cobras, como era de se esperar, não entraram na briga, enquanto os três urubus se colocaram no galho de uma árvore e já começavam a esticar uma toalha de mesa quadriculada para um piquenique que prometia ser bem servido quando os quatro cães da diligência do Delegado Jorjão trataram de colocar ordem no agronegócio, distribuindo latidos, mordidas e bombas de gás lacrimogênio no meio da multidão. Os pássaros rapidamente voaram para longe, enquanto os porcos correram com os olhos cheios d’água de volta para a floresta.

Quando a fumaça dissipou, os três urubus que aguardavam ansiosos pra ver o resultado do conflito ficaram decepcionados por não haver nenhuma vítima fatal. Os ratos, percebendo a gravidade do novo cenário, começaram a sair de fininho, sendo imediatamente seguidos pelas cobras. As antas e as capivaras voltaram juntas pro rio comentando o resultado da última rodada do campeonato de São João do Quentão.

O Peteleco, que ficou esquecido de todos, até da Zuleica, muito antes da confusão terminar em briga, já ia lá longe no arado, pois sabe que, chova ou faça sol, é obrigação do trabalhador da terra seguir com as suas tarefas do dia.

O Delegado Jorjão? Segundo apurei com o Peteleco mais tarde, soube-se que ficou até depois do ocaso tentando levar preso um enorme cupinzeiro que ele imaginou ser um porco que não queria, e nem poderia, responder às suas perguntas para esclarecimento do caso.

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O Burro e o Carroceiro (Esopo)

Um carroceiro tangia  um burro que, mais do que carregado, mal podia dar um passo; de tão maltratado e exausto o burro sucumbiu ; o carroceiro o esfolou , e vendeu a pele. Fizeram dela um tambor, sobre o qual andaram sempre tangendo pelas feiras.

MORAL DA HISTÓRIA: Há desgraçados que nem depois de mortos descansam.

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O Asno e o Cachorrinho (Esopo)

Vendo um asno que seu dono acarinhava muito a um cachorrinho, porque este vinha ao seu encontro saudando-o com mimos e caretas, disse a si mesmo: “Se um animal tão pequeno é tão querido do meu amo e da sua família, muito mais eles iriam agradecer meus carinhos, uma vez que eu valho mais e presto maiores serviços.”Disto convencido, o asno, assim que viu o amo chegar, saiu correndo e relinchando do estábulo, e entre pulos e coices pôs-se a bailar na presença do dono. Atônito o homem com tal recepção asnal começou a rir com muita vontade. E o asno, acreditando que estava no caminho certo, se pôs a relinchar no ouvido do amo, colocou as patas em cima dos ombros dele, sujou suas vestes e tratou de lamber-lhe o rosto. Cansado o dono daquela estranha brincadeira pegou numa estaca e partiu-a nas costas do espantado asno.

Causas iguais às vezes têm efeitos desiguais. Geralmente os néscios pensam agradar quando não fazem outra coisa que causar desgosto e enfado.

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A Enguia (Olavo Bilac)

Ao alvorecer, na pequenina aldeia, à beira-mar, padre João, ainda estremunhado de sono, vai seguindo a praia branca, a caminho da igrejinha, que parece ao longe, clara e alegre, levantando no nevoeiro a sua torre esbelta. Lá vai o bom pároco dizer a sua missa e pregar o seu sermão de quaresma… Velho e gordo, muito velho e muito gordo, padre João é muito amado de toda a gente do lugar. E os pescadores que o vêm, vão deixando as redes e vão também seguindo para a igreja. E o bom pároco abençoa as suas ovelhas, e vai sorrindo, sorrindo, com aquele sorriso todo bondade e todo indulgência…

À porta da igreja, a Sra. Tomásia, velha devota que o adora, vem ao encontro dele:

— Padre João! Aqui está um regalo que lhe quero oferecer para o seu almocinho de hoje…

E tira do cabaz uma enguia, uma soberba enguia, grossa e apetitosa, viva, remexendo-se.

— Deus te pague, filha! — diz o bom padre, — e os seus olhos fulguram, cheios de júbilo e gula. E segura a enguia, e vai entrando com ela na mão, seguido da velha devota. Que bela enguia! e padre João apalpa voluptuosamente o peixe…

Mas já aí vem o sacristão. A igreja está cheia… A missa vai começar… Que há de fazer o padre João da sua formosa enguia? Deixá-la ali, expô-la ao apetite do padre Antônio, que também é guloso? Padre João não hesita: levanta a batina e com um barbante amarra a enguia em roda da cintura.

A missa acaba. Padre João, comovido e grave, sobe ao púlpito rústico da igreja. E a sua voz pausada começa a narrar a delícia da abstinência e das privações: é preciso amar a Deus… é preciso evitar as torpezas do mundo… é preciso fugir das tentações da carne… E o auditório ouve com recolhimento a palavra suave do seu bom pároco.

Mas, de repente, que é aquilo? Os homens abrem os olhos espantados; remexem-se as mulheres, levantando curiosamente os olhares para o púlpito… É que, na barriga do padre João, debaixo da batina, alguma coisa grossa está bolindo… E já na multidão de fiéis correm uns risinhos abafados…

Padre João compreende. Pobre pároco! pobre pároco atrapalhado! cora até a raiz dos cabelos, balbucia, fica tonto e confuso. Depois, cria coragem e, vencendo a vergonha, exclama:

— Não é nada do que pensais, filhas! não é carne! é peixe! é peixe! não é carne!…

E sacode no ar, com a mão tremula, a enguia da senhora Tomásia…

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Esaú e Jacó – Caso do Burro

Foi o caso que uma carroça estava parada, ao pé da Travessa de São Francisco, sem deixar passar um carro, e o carroceiro dava muita pancada no burro da carroça. Vulgar embora, este espetáculo fez parar o nosso Aires, não menos condoído do asno do homem. A força despendida por este era grande, porque o asno ruminava se devia ou não sair do lugar; mas, não obstante esta superioridade, apanhava que era o diabo. Já havia algumas pessoas paradas, mirando. Cinco ou seis minutos durou esta situação; finalmente o burro preferiu a marcha à pancada, tirou a carroça do lugar e foi andando.

Nos olhos redondos do animal viu Aires uma expressão profunda de ironia e paciência. Pareceu-lhe o gesto largo de espírito invencível. Depois leu nele este monólogo: “Anda, patrão, atulha a carroça de carga para ganhar o capim de que me alimentas. Vive de pé no chão para comprar as minhas ferraduras. Nem por isso me impedirás que te chame um nome feio, mas eu não te chamo de nada; ficas sendo sempre o meu querido patrão. Enquanto te esfalfas em ganhar a vida, eu vou pensando que o teu domínio não vale muito, uma vez que me não tiras a liberdade de teimar…”

 “Vê-se, quase que se lhe ouve a reflexão”, notou Aires consigo.

 Depois riu de si para si, e foi andando. Inventara tanta coisa no serviço diplomático, que talvez inventasse o monólogo do burro. Assim foi, não lhe leu nada nos olhos, a não ser a ironia e a paciência, mas não se pode ter que lhes não desse uma forma de palavra, com as suas regras de sintaxe. A própria ironia estava acaso na retina dele. O olho do homem serve de fotografia ao invisível, como o ouvido serve de eco ao silêncio. Tudo é que o dono tenha um lampejo de imaginação para ajudar a memória a esquecer Caracas e Cármem, os seus beijos e experiência política.

Trecho de ” Esaú e Jacó ” de Machado de Assis ( 1839-1908)

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Conto de Escola (Machado de Assis)

A escola era na Rua do Costa, um sobradinho de grade de pau. O ano era de 1840. Naquele dia – uma segunda-feira, do mês de maio – deixei-me estar alguns instantes na Rua da Princesa a ver onde iria brincar a manhã. Hesitava entre o morro de S. Diogo e o Campo de Sant’Ana, que não era então esse parque atual, construção de gentleman, mas um espaço rústico, mais ou menos infinito, alastrado de lavadeiras, capim e burros soltos. Morro ou campo? Tal era o problema. De repente disse comigo que o melhor era a escola. E guiei para a escola. Aqui vai a razão.

Na semana anterior tinha feito dois suetos, e, descoberto o caso, recebi o pagamento das mãos de meu pai, que me deu uma sova de vara de marmeleiro. As sovas de meu pai doíam por muito tempo. Era um velho empregado do Arsenal de Guerra, ríspido e intolerante. Sonhava para mim uma grande posição comercial, e tinha ânsia de me ver com os elementos mercantis, ler, escrever e contar, para me meter de caixeiro. Citava-me nomes de capitalistas que tinham começado ao balcão. Ora, foi a lembrança do último castigo que me levou naquela manhã para o colégio. Não era um menino de virtudes.

Subi a escada com cautela, para não ser ouvido do mestre, e cheguei a tempo; ele entrou na sala três ou quatro minutos depois. Entrou com o andar manso do costume, em chinelas de cordovão, com a jaqueta de brim lavada e desbotada, calça branca e tesa e grande colarinho caído. Chamava-se Policarpo e tinha perto de cinqüenta anos ou mais. Uma vez sentado, extraiu da jaqueta a boceta de rapé e o lenço vermelho, pô-los na gaveta; depois relanceou os olhos pela sala. Os meninos, que se conservaram de pé durante a entrada dele, tornaram a sentar-se. Tudo estava em ordem; começaram os trabalhos.

– Seu Pilar, eu preciso falar com você, disse-me baixinho o filho do mestre.

Chamava-se Raimundo este pequeno, e era mole, aplicado, inteligência tarda. Raimundo gastava duas horas em reter aquilo que a outros levava apenas trinta ou cinqüenta minutos; vencia com o tempo o que não podia fazer logo com o cérebro. Reunia a isso um grande medo ao pai. Era uma criança fina, pálida, cara doente; raramente estava alegre. Entrava na escola depois do pai e retirava-se antes. O mestre era mais severo com ele do que conosco.

– O que é que você quer?

– Logo, respondeu ele com voz trêmula.

Começou a lição de escrita. Custa-me dizer que eu era dos mais adiantados da escola; mas era. Não digo também que era dos mais inteligentes, por um escrúpulo fácil de entender e de excelente efeito no estilo, mas não tenho outra convicção. Note-se que não era pálido nem mofino: tinha boas cores e músculos de ferro. Na lição de escrita, por exemplo, acabava sempre antes de todos, mas deixava-me estar a recortar narizes no papel ou na tábua, ocupação sem nobreza nem espiritualidade, mas em todo caso ingênua. Naquele dia foi a mesma coisa; tão depressa acabei, como entrei a reproduzir o nariz do mestre, dando-lhe cinco ou seis atitudes diferentes, das quais recordo a interrogativa, a admirativa, a dubitativa e a cogitativa. Não lhes punha esses nomes, pobre estudante de primeiras letras que era; mas, instintivamente, dava-lhes essas expressões. Os outros foram acabando; não tive remédio senão acabar também, entregar a escrita, e voltar para o meu lugar.

Com franqueza, estava arrependido de ter vindo. Agora que ficava preso, ardia por andar lá fora, e recapitulava o campo e o morro, pensava nos outros meninos vadios, o Chico Telha, o Américo, o Carlos das Escadinhas, a fina flor do bairro e do gênero humano. Para cúmulo de desespero, vi através das vidraças da escola, no claro azul do céu, por cima do morro do Livramento, um papagaio de papel, alto e largo, preso de uma corda imensa, que bojava no ar, uma coisa soberba. E eu na
escola, sentado, pernas unidas, com o livro de leitura e a gramática nos joelhos.

– Fui um bobo em vir, disse eu ao Raimundo.

– Não diga isso, murmurou ele.

Olhei para ele; estava mais pálido. Então lembrou-me outra vez que queria pedir-me alguma coisa, e perguntei-lhe o que era. Raimundo estremeceu de novo, e, rápido, disse-me que esperasse um pouco; era uma coisa particular.

– Seu Pilar… murmurou ele daí a alguns minutos.

– Que é?

– Você…

– Você quê?

Ele deitou os olhos ao pai, e depois a alguns outros meninos. Um destes, o Curvelo, olhava para ele, desconfiado, e o Raimundo, notando-me essa circunstância, pediu alguns minutos mais de espera. Confesso que começava a arder de curiosidade. Olhei para o Curvelo, e vi que parecia atento; podia ser uma simples curiosidade vaga, natural indiscrição; mas podia ser também alguma coisa entre eles. Esse Curvelo era um pouco levado do diabo. Tinha onze anos, era mais velho que nós.

Que me quereria o Raimundo? Continuei inquieto, remexendo-me muito, falando-lhe baixo, com instância, que me dissesse o que era, que ninguém cuidava dele nem de mim. Ou então, de tarde…

– De tarde, não, interrompeu-me ele; não pode ser de tarde.

– Então agora…

– Papai está olhando.

Na verdade, o mestre fitava-nos. Como era mais severo para o filho, buscava-o muitas vezes com os olhos, para trazê-lo mais aperreado. Mas nós também éramos finos; metemos o nariz no livro, e continuamos a ler. Afinal cansou e tomou as folhas do dia, três ou quatro, que ele lia devagar, mastigando as idéias e as paixões. Não esqueçam que estávamos então no fim da Regência, e que era grande a agitação pública. Policarpo tinha decerto algum partido, mas nunca pude averiguar esse ponto. O pior que ele podia ter, para nós, era a palmatória. E essa lá estava, pendurada do portal da janela, à direita, com os seus cinco olhos do diabo. Era só levantar a mão, despendurá-la e brandi-la, com a força do costume, que não era pouca. E daí, pode ser que alguma vez as paixões políticas dominassem nele a ponto de poupar-nos uma ou outra correção. Naquele dia, ao menos, pareceu-me que lia as folhas com muito interesse; levantava os olhos de quando em quando, ou tomava uma pitada, mas tornava logo aos jornais, e lia a valer.

No fim de algum tempo – dez ou doze minutos – Raimundo meteu a mão no bolso das calças e olhou para mim.

– Sabe o que tenho aqui?

– Não.

– Uma pratinha que mamãe me deu.

– Hoje?

– Não, no outro dia, quando fiz anos…

– Pratinha de verdade?

– De verdade.

Tirou-a vagarosamente, e mostrou-me de longe. Era uma moeda do tempo do rei, cuido que doze vinténs ou dois tostões, não me lembro; mas era uma moeda, e tal moeda que me fez pular o sangue no coração. Raimundo revolveu em mim o olhar pálido; depois perguntou-me se a queria para mim. Respondi-lhe que estava caçoando, mas ele jurou que não.

– Mas então você fica sem ela?

– Mamãe depois me arranja outra. Ela tem muitas que vovô lhe deixou, numa caixinha; algumas são de ouro. Você quer esta?

Minha resposta foi estender-lhe a mão disfarçadamente, depois de olhar para a mesa do mestre. Raimundo recuou a mão dele e deu à boca um gesto amarelo, que queria sorrir. Em seguida propôs-me um negócio, uma troca de serviços; ele me daria a moeda, eu lhe explicaria um ponto da lição de sintaxe. Não conseguira reter nada do livro, e estava com medo do pai. E concluía a proposta esfregando a pratinha nos joelhos…

Tive uma sensação esquisita. Não é que eu possuísse da virtude uma idéia antes própria de homem; não é também que não fosse fácil em empregar uma ou outra mentira de criança. Sabíamos ambos enganar ao mestre. A novidade estava nos termos da proposta, na troca de lição e dinheiro, compra franca, positiva, toma lá, dá cá; tal foi a causa da sensação. Fiquei a olhar para ele, à toa, sem poder dizer nada.

Compreende-se que o ponto da lição era difícil, e que o Raimundo, não o tendo aprendido, recorria a um meio que lhe pareceu útil para escapar ao castigo do pai. Se me tem pedido a coisa por favor, alcançá-la-ia do mesmo modo, como de outras vezes, mas parece que era lembrança das outras vezes, o medo de achar a minha vontade frouxa ou cansada, e não aprender como queria, – e pode ser mesmo que em alguma ocasião lhe tivesse ensinado mal, – parece que tal foi a causa da proposta. O pobre-diabo contava com o favor, – mas queria assegurar-lhe a eficácia, e daí recorreu à moeda que a mãe lhe dera e que ele guardava como relíquia ou brinquedo; pegou dela e veio esfregá-la nos joelhos, à minha vista, como uma tentação… Realmente, era bonita, fina, branca, muito branca; e para mim, que só trazia cobre no bolso, quando trazia alguma coisa, um cobre feio, grosso, azinhavrado…

Não queria recebê-la, e custava-me recusá-la. Olhei para o mestre, que continuava a ler, com tal interesse, que lhe pingava o rapé do nariz. – Ande, tome, dizia-me baixinho o filho. E a pratinha fuzilava-lhe entre os dedos, como se fora diamante… Em verdade, se o mestre não visse nada, que mal havia? E ele não podia ver nada, estava agarrado aos jornais, lendo com fogo, com indignação…

– Tome, tome…

Relancei os olhos pela sala, e dei com os do Curvelo em nós; disse ao Raimundo que esperasse. Pareceu-me que o outro nos observava, então dissimulei; mas daí a pouco deitei-lhe outra vez o olho, e – tanto se ilude a vontade! – não lhe vi mais nada. Então cobrei ânimo.

– Dê cá…

Raimundo deu-me a pratinha, sorrateiramente; eu meti-a na algibeira das calças, com um alvoroço que não posso definir. Cá estava ela comigo, pegadinha à perna. Restava prestar o serviço, ensinar a lição e não me demorei em fazê-lo, nem o fiz mal, ao menos conscientemente; passava-lhe a explicação em um retalho de papel que ele recebeu com cautela e cheio de atenção. Sentia-se que despendia um esforço cinco ou seis vezes maior para aprender um nada; mas contanto que ele escapasse ao castigo, tudo iria bem.

De repente, olhei para o Curvelo e estremeci; tinha os olhos em nós, com um riso que me pareceu mau. Disfarcei; mas daí a pouco, voltando-me outra vez para ele, achei-o do mesmo modo, com o mesmo ar, acrescendo que entrava a remexer-se no banco, impaciente. Sorri para ele e ele não sorriu; ao contrário, franziu a testa, o que lhe deu um aspecto ameaçador. O coração bateu-me muito.

– Precisamos muito cuidado, disse eu ao Raimundo.

– Diga-me isto só, murmurou ele.

Fiz-lhe sinal que se calasse; mas ele instava, e a moeda, cá no bolso, lembrava-me o contrato feito. Ensinei-lhe o que era, disfarçando muito; depois, tornei a olhar para o Curvelo, que me pareceu ainda mais inquieto, e o riso, dantes mau, estava agora pior. Não é preciso dizer que também eu ficara em brasas, ansioso que a aula acabasse; mas nem o relógio andava como das outras vezes, nem o mestre fazia caso da escola; este lia os jornais, artigo por artigo, pontuando-os com exclamações, com gestos de ombros, com uma ou duas pancadinhas na mesa. E lá fora, no céu azul, por cima do morro, o mesmo eterno papagaio, guinando a um lado e outro, como se me chamasse a ir ter com ele. Imaginei-me ali, com os livros e a pedra embaixo da mangueira, e a pratinha no bolso das calças, que eu não daria a ninguém, nem que me serrassem; guardá-la-ia em casa, dizendo a mamãe que a tinha achado na rua. Para que me não fugisse, ia-a apalpando, roçando-lhe os dedos pelo cunho, quase lendo pelo tato a inscrição, com uma grande vontade de espiá-la.

– Oh! seu Pilar! bradou o mestre com voz de trovão.

Estremeci como se acordasse de um sonho, e levantei-me às pressas. Dei com o mestre, olhando para mim, cara fechada, jornais dispersos, e ao pé da mesa, em pé, o Curvelo. Pareceu-me adivinhar tudo.

– Venha cá! bradou o mestre.

Fui e parei diante dele. Ele enterrou-me pela consciência dentro um par de olhos pontudos; depois chamou o filho. Toda a escola tinha parado; ninguém mais lia, ninguém fazia um só movimento. Eu, conquanto não tirasse os olhos do mestre, sentia no ar a curiosidade e o pavor de todos.

– Então o senhor recebe dinheiro para ensinar as lições aos outros? disse-me o Policarpo.

– Eu…

– Dê cá a moeda que este seu colega lhe deu! clamou.

Não obedeci logo, mas não pude negar nada. Continuei a tremer muito. Policarpo bradou de novo que lhe desse a moeda, e eu não resisti mais, meti a mão no bolso, vagarosamente, saquei-a e entreguei-lha. Ele examinou-a de um e outro lado, bufando de raiva; depois estendeu o braço e atirou-a à rua. E então disse-nos uma porção de coisas duras, que tanto o filho como eu acabávamos de praticar uma ação feia, indigna, baixa, uma vilania, e para emenda e exemplo íamos ser castigados. Aqui pegou da palmatória.

– Perdão, seu mestre… solucei eu.

– Não há perdão! Dê cá a mão! Dê cá! Vamos! Sem-vergonha! Dê cá a mão!

– Mas, seu mestre…

– Olhe que é pior!

Estendi-lhe a mão direita, depois a esquerda, e fui recebendo os bolos uns por cima dos outros, até completar doze, que me deixaram as palmas vermelhas e inchadas. Chegou a vez do filho, e foi a mesma coisa; não lhe poupou nada, dois, quatro, oito, doze bolos. Acabou, pregou-nos outro sermão. Chamou-nos sem-vergonhas, desaforados, e jurou que se repetíssemos o negócio apanharíamos tal castigo que nos havia de lembrar para todo o sempre. E exclamava: Porcalhões! tratantes! faltos de brio!

Eu, por mim, tinha a cara no chão. Não ousava fitar ninguém, sentia todos os olhos em nós. Recolhi-me ao banco, soluçando, fustigado pelos impropérios do mestre. Na sala arquejava o terror; posso dizer que naquele dia ninguém faria igual negócio. Creio que o próprio Curvelo enfiara de medo. Não olhei logo para ele, cá dentro de mim jurava quebrar-lhe a cara, na rua, logo que saíssemos, tão certo como três e dois serem cinco.

Daí a algum tempo olhei para ele; ele também olhava para mim, mas desviou a cara, e penso que empalideceu. Compôs-se e entrou a ler em voz alta; estava com medo. Começou a variar de atitude, agitando-se à toa, coçando os joelhos, o nariz. Pode ser até que se arrependesse de nos ter denunciado; e na verdade, por que denunciar-nos? Em que é que lhe tirávamos alguma coisa?

– Tu me pagas! tão duro como osso! dizia eu comigo.

Veio a hora de sair, e saímos; ele foi adiante, apressado, e eu não queria brigar ali mesmo, na Rua do Costa, perto do colégio; havia de ser na Rua larga São Joaquim. Quando, porém, cheguei à esquina, já o não vi; provavelmente escondera-se em algum corredor ou loja; entrei numa botica, espiei em outras casas, perguntei por ele a algumas pessoas, ninguém me deu notícia. De tarde faltou à escola.

Em casa não contei nada, é claro; mas para explicar as mãos inchadas, menti a minha mãe, disse-lhe que não tinha sabido a lição. Dormi nessa noite, mandando ao diabo os dois meninos, tanto o da denúncia como o da moeda. E sonhei com a moeda; sonhei que, ao tornar à escola, no dia seguinte, dera com ela na rua, e a apanhara, sem medo nem escrúpulos…

De manhã, acordei cedo. A idéia de ir procurar a moeda fez-me vestir depressa. O dia estava esplêndido, um dia de maio, sol magnífico, ar brando, sem contar as calças novas que minha mãe me deu, por sinal que eram amarelas. Tudo isso, e a pratinha… Saí de casa, como se fosse trepar ao trono de Jerusalém. Piquei o passo para que ninguém chegasse antes de mim à escola; ainda assim não andei tão depressa que amarrotasse as calças. Não, que elas eram bonitas! Mirava-as, fugia aos encontros, ao lixo da rua…

Na rua encontrei uma companhia do batalhão de fuzileiros, tambor à frente, rufando. Não podia ouvir isto quieto. Os soldados vinham batendo o pé rápido, igual, direita, esquerda, ao som do rufo; vinham, passaram por mim, e foram andando. Eu senti uma comichão nos pés, e tive ímpeto de ir atrás deles. Já lhes disse: o dia estava lindo, e depois o tambor… Olhei para um e outro lado; afinal, não sei como foi, entrei a marchar também ao som do rufo, creio que cantarolando alguma coisa: Rato na casaca… Não fui à escola, acompanhei os fuzileiros, depois enfiei pela Saúde, e acabei a manhã na Praia da Gamboa. Voltei para casa com as calças enxovalhadas, sem pratinha no bolso nem ressentimento na alma. E contudo a pratinha era bonita e foram eles, Raimundo e Curvelo, que me deram o primeiro conhecimento, um da corrupção, outro da delação; mas o diabo do tambor…

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A IGREJA DO DIABO (Machado de Assis)

 

CAPÍTULO I

DE UMA IDÉIA MIRÍFICA

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.

– Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.

Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: – Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

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